Correio de Coimbra

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31 de outubro de 2008

A Santidade é um caminho para todos


O dia de Todos-os-Santos convida-nos a celebrar os santos. Mas o que é um santo? Também nós podemos ser santos?

A Igreja convida-nos a ver na santidade um caminho para todos. Um santo não é um estranho, nem um herói e nem um modelo de virtudes. É um irmão ou uma irmã que nos precedeu na fé e permanece atento à nossa vida. O santo é um exemplo vivo daquilo que é possível para cada um de nós: segundo Jesus, fazer da nossa vida uma vida santa.
Para nos tornarmos santos, não há um caminho único. Cada qual, tal como é, deve seguir a Jesus com alegria, vivendo segundo o seu Evangelho. Isto significa, numa palavra, que deve amar a Deus e aos irmãos.
Os santos, apesar dos seus defeitos como todos nós, foram os que tomaram a sério este mandamento que recebemos do Senhor. Não somos convidados a imitar a maneira de ser dos santos, mas essa sua alegria e liberdade com que amaram como Jesus amou.
Alguns santos são mártires, outros fundaram ordens ou congregações religiosas, outros dedicaram a sua vida aos pobres, outros foram simplesmente pais ou mães de família. Todos eles foram e são felizes.
Os santos estão juntos de Deus. Estão vivos. É este o sentido da festa que lhe fazemos no primeiro dia do mês de Novembro que comemoramos no próximo sábado. Os santos não abandonaram a solidariedade humana. A Santa Teresinha do Menino Jesus costumava dizer: «Eu passarei o meu céu a fazer o bem na terra!». Que linda expressão… Uma doação total ao próximo.
É neste sentido que devemos entender os milagres: são uma prova de um santo para com os seus irmãos…Por isso, nada estranha que um milagre seja reconhecido como um dos elementos que entram no processo de canonização de uma pessoa.
A santidade é um caminho para todos. O ser cristão só tem sentido se formos por esse caminho… Há muito trabalho por fazer, se deixarmos o nosso egocentrismo e egoísmo de lado, e pormo-nos mão à obra, de modo a contribuir para uma comunidade mais solidária, mais justa e mais fraterna.



Miguel Cotrim

…. E a vida continua

Novembro é o mês em que se recordam os que já partiram deste mundo. Mas será a morte um fim ou uma passagem? Responde Santo Agostinho.

«A morte não é nada. Eu somente passei para o outro lado do caminho. Eu sou eu, vocês são vocês, eu continuo vivo».
Dêem-me o nome que sempre me deram, falem comigo como sempre fizeram. Vocês continuam a viver no mundo do Criador.
Não utilizem um tom solene ou triste, continuam a rir daquilo que nos fazia rir juntos. Rezem, sorriam, pensem em mim. Rezem por mim.
A vida significa tudo o que sempre significou, o fio não foi cortado. Por que deveria eu estar fora dos vossos pensamentos, agora que estou apenas fora das visas vistas? Eu não estou longe, estou apenas do outro lado do caminho.
Vocês que aí ficarem, sigam em frente, a vida continua, linda e bela como sempre foi».

Serviços Eclesiais Laicais

A Escola Diocesana de Leigos vai ter a seu cuidado a preparação dos leigos para o exercício de alguns serviços eclesiais, nomeadamente os Ministérios da Distribuição da Sagrada Comunhão, da Animação da Celebração Dominical na ausência de Presbíteros e da Presidência de Exéquias.
Os encontros para todos os ministérios começam já a 8 de Novembro, das 9 às 12,30 horas, seguindo-se os outros três nos sábados seguintes e no mesmo horário.
Os específicos de cada Ministério são só em Janeiro e deles daremos notícia mais tarde.

Festival Jovem da Canção


O Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil está a preparar duas grandes actividades dirigidas aos jovens para este mês: trata-se do XIII Festival Jovem Diocesano da Canção que se realiza a 8 de Novembro, às 21,30 horas, no Pavilhão Multiusos da Carapinheira, sob a responsabilidade da Região Beira-Mar.
O XIII Festival Jovem Diocesano, na Carapinheira, integra o Encontro Diocesano de 2008-2009, daí a organização apelar à participação de todos os jovens da diocese. O Encontro inicia-se às 20 horas com uma Eucaristia Dominical com a comunidade paroquial da Carapinheira, na Igreja Matriz.
A canção vencedora representará a Diocese de Coimbra no Festival Nacional, que se realizará a 1 de Dezembro, às 15 horas, em Coimbra, no Pavilhão Multiusos de Coimbra (junto ao Dolce Vita).

Secretariado Diocesano da Catequese promove reuniões com catequistas

O Secretariado Diocesano de Evangelização e Catequese tem um novo coordenador que é o Padre Rodolfo Leite. Para auscultar os catequistas coordenadores, este Secretariado informa através de um comunicado que vai realizar uma primeira reunião com os mesmos, em Novembro, nos seguintes dias e locais:
- Região Nordeste, dia 15 de Novembro, no Centro Pastoral de Arganil;
- Região Pastoral da Beira Mar, dia 16 de Novembro, no Seminário da Figueira da Foz;
- Região Pastoral Sul, dia 22 de Novembro, no Centro Pastoral de Chão de Couce;
- Região Centro, dia 23 de Novembro, no Seminário Maior de Coimbra;
O horário de todos os encontros é das 14,30 às 17 horas.

Irmãs da Rainha Santa organizam Venda de Natal

O grupo de Irmãs Zeladoras da Rainha Santa Isabel leva a efeito até ao próximo dia 20 de Novembro, a sua tradicional Venda de Natal, no Centro Comercial do Arnado, loja nº. 12.
O produto desta Venda de Natal destina-se à compra de géneros alimentares para se distribuírem pelas famílias mais carenciadas das paróquias de Coimbra, numa acção de partilha sócio-caritativa, a exemplo da padroeira, Rainha Santa Isabel.

30 de outubro de 2008

Pastoral Universitária da Diocese de Coimbra organiza “Noite com Cristo”


O Secretariado da Pastoral Universitária da Diocese de Coimbra organiza, dia 21 de Novembro, uma Noite CC (Cristo em Coimbra). Esta iniciativa pretende ser “uma noite de fascínio e de encanto, com Deus e com muito outros, à procura do essencial” – realça um comunicado enviado à redacção do nosso jornal.
Música, viagem de barco e “muitas surpresas” são as actividades a realizar ao longo da noite que terá também uma celebração presidida por D. Albino Cleto, Bispo de Coimbra. A partida será da Sé Velha e culmina no Pátio das Escolas. Mais informações no Centro Universitário Manuel da Nóbrega e no Instituto Universitário Justiça e Paz.

Cantanhede: Padre Henrique Maçarico leva património religioso dos Covões ao Museu da Pedra

Vai estar patente no Museu da Pedra, em Cantanhede, ao longo dos próximos seis meses, a exposição de arte sacra da paróquia de Covões. A exposição foi inaugurada no passado dia 29 de Outubro, no dia em que o Museu da Pedra assinalou o seu sétimo aniversário.
No dia da inauguração, o pároco de Covões, Henrique Maçarico, fez referência ao património religioso patente na exposição de arte sacra oriunda da sua paróquia e que integra cinco esculturas de elevado valor patrimonial datadas entre os séculos XV e XVII.
Nesta exposição, que estará patente ao público durante cerca de seis meses, além das imagens de S. Francisco, S. João, S. Sebastião e de Nossa Senhora com o Menino, pode ser apreciada uma pia baptismal constituída por uma coluna de base e capitel e um vaso de bordo circular semiesférico, elemento de escultura inédito em exposições de arte sacra que o Museu da Pedra tem vindo a apresentar.

29 de outubro de 2008

Emília Cardoso fala dos 75 anos das Cooperadoras da Família

"Queremos dar resposta mais eficaz
aos problemas da família"



O Instituto Secular das Cooperadoras da Família está a comemorar os 75 anos da sua fundação. Em curta entrevista ao "Correio", a coordenadora do Instituto em Coimbra, Emília Cardoso, fala um pouco do caminho percorrido, das dificuldades sentidas na sua acção e das perspectivas de futuro.


Correio de Coimbra (CC) – As Cooperadoras celebram 75 anos da sua fundação. Que balanço se pode fazer, em poucas palavras, deste já longo período de existência?
Emília Cardoso (EC) –
Ao olhar estes 75 anos de vida do Instituto, podemos dizer que o balanço é positivo. Sentimos que o Instituto não ficou parado no tempo, mas, dentro das suas possibilidades e simplicidade, procurou viver em fidelidade dinâmica o carisma que lhe foi confiado. Procurou ajustar a sua acção às necessidades da sociedade e da família. Investiu na formação e na reestruturação dos serviços destinados à família de acordo com as exigências feitas.
CC – Que manifestações ocorreram em Coimbra para celebrar esta data jubilar?
EC –
Procurou-se mobilizar a nível local para a participação nas acções a nível internacional, nomeadamente: A Campanha "Um sorriso para Cabinda"; A peregrinação Internacional a Fátima, onde foram reconhecidas, oficialmente as virtudes heróicas do seu fundador; o Encontro Internacional em Casegas, terra natal do fundador, precedido de uma semana missionária, nesta mesma localidade e a inauguração de um Museu, dedicado a Mons. Joaquim Alves Brás. A nível local, assinalou-se a abertura dos 75 anos com uma vigília de oração, a celebração de uma Eucaristia em contexto paroquial, onde se anunciou o Ano Jubilar; a participação de uma Campanha de oração pelas vocações; em várias Eucaristias foi dado a conhecer o Instituto e ao mesmo tempo foi feito o convite à participação na celebração local dos 75 anos que ocorreu no passado dia 26 de Outubro, com o programa já publicado.
CC – O carisma do Instituto é a promoção da família. Quais as maiores dificuldades que se deparam, neste tempo, para cumprir esse objectivo?
EC –
Na realização do seu carisma nos dias de hoje, o Instituto encontra duas grandes dificuldades: primeira, como ajudar a família hoje, neste contexto em que a mesma sofre contínuos ataques na sua identidade e missão. Segunda, sentimos que somos poucas para dar uma resposta mais qualitativa aos problemas que afectam hoje a família.
CC – Do pequeno grupo inicial, o Instituto cresceu em número e na preparação dos seus membros. Como se tem feito essa caminhada de mudança?
EC –
Essa caminhada foi sendo feita gradualmente. O Instituto foi investindo seriamente na preparação dos seus membros aos vários níveis, o que possibilitou uma maior intervenção. Outro campo onde o Instituto tem investido é na pastoral juvenil/vocacional, criando grupos de jovens e dando a conhecer o seu Carisma junto dos mesmos.
CC – Numa época em que a Igreja sente dificuldades em atrair vocações de consagração religiosa ou secular, qual o panorama em relação ao Instituto Secular das Cooperadoras da Família?
EC –
É verdade que em relação a décadas anteriores, as vocações entram em menor número para o Instituto. Não obstante isto, graças a Deus, nos últimos anos têm entrado sempre novas vocações.
CC – Quais os atractivos que podem levar as jovens raparigas a decidir-se pela consagração no vosso Instituto?
EC –
Os atractivos podem ser vários: Primeiro, o desafio e ousadia de consagrar a sua vida a Deus permanecendo nas condições normais de qualquer leigo, sendo aí fermento a levedar a massa. Segundo: A graça de ter como horizonte de sentido o ideal da evangelização e defesa da família, segundo o que Deus sonhou para ela. Terceiro: A possibilidade de realizar este carisma vivendo a sós, em família ou em grupos de vida fraterna.
CC – Através de que meios e de que acções se tem feito sentir a presença do Instituto em Portugal?
EC –
Realização da própria profissão, olhada como espaço de missão, dando atenção especial à família; Dinamização e coordenação das obras deixadas pelo Fundador e outras criadas posteriormente: A O.S.Z. com actividades formativas e apostólicas: Creches, jardins-de-infância, ATL´s – dando particular atenção às relação com a família; Incentivo, apoio e dinamização do Movimento Por um Lar Cristão, movimento de espiritualidade conjugal e familiar; Cursos de formação familiar; Escolas profissional "ASAS" com as vertentes: animador social e técnico auxiliar de infância; Dinamização do grupo Focos de Esperança; Centros de Aconselhamento Familiar; Inserção em estruturas sociais e eclesiais que atinjam especialmente a família; A existência de diversas publicações direccionadas para a formação e informação da família…
CC – E em Coimbra?
EC –
Pelo exercício profissional; Centro de Aconselhamento Familiar, inserção nas estruturas Diocesanas, cursos de formação familiar, dinamização do MLC – Movimento de espiritualidade familiar. Grupo juvenil "Focos de Esperança" e divulgação da imprensa.
CC – Que desafios se colocam ao Instituto das Cooperadoras neste início do século XXI?
EC –
A Vivência autêntica da secularidade, e a capacidade de dar uma resposta mais qualitativa e eficaz aos problemas da família, tornando criativo, dinâmico e actual o carisma do Instituto de modo a despertar nos jovens o desejo de se darem à família.
CC – Que mensagem gostaria de deixar aos nossos leitores?
EC – Para se viver feliz é preciso viver com sentido e aberto ao que Deus sonha para cada pessoa. Se um jovem se sente chamado por Deus a dedicar toda a sua vida à família e vive este projecto com empenho, verdade e profundidade, é feliz porque encontrou o sentido para a vida, ou seja, um ideal pelo qual vale a pena entregar a vida.

A Sagrada Escritura no Sínodo dos Bispos


Manuel Augusto Rodrigues

Decorreu em Roma o Sínodo dos bispos, que teve início a 5 de Outubro na basílica de S. Paulo "extra muros", para evidenciar que neste ano se celebram os dois mil anos do nascimento do apóstolo dos povos. O tema escolhido foi "A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja". De sublinhar a presença no Sínodo de várias personalidades de relevo, como a de um rabino e de membros de outras igrejas ou movimentos católicos, etc. que intervieram nas diversas sessões. Relativa mente ao interesse que se verifica pela Bíblia lembre-se o programa RAI (Televisão italiana) com a leitura contínua dos textos sagrados ao longo de alguns dias e a entrega ao papa de uma Bíblia poliglota que teve lugar recentemente. Mas o analfabetismo bíblico, como foi evidenciado numa das sessões do Sínodo, continua a ser uma realidade.
No discurso de abertura Bento XVI afirmou, entre várias considerações, que a influência negativa de uma certa cultura moderna levou a que países que outrora tinham grande riqueza de fé e de vocações estão perdendo a sua identidade. Os que decidiram que "Deus morreu" declaram-se a si mesmos como "deuses", julgando-se os únicos agentes do seu próprio destino, os proprietários absolutos do mundo. Mas, ao eliminar-se Deus do seu horizonte, ao declarar-se que Deus "morreu", tornam-se verdadeiramente felizes e mais livres? "Quando os homens se proclamam proprietários absolutos de si mesmos e únicos donos da criação, podem verdadeiramente construir uma sociedade na qual reinem a liberdade, a justiça e a paz?", continuou interrogando-se.
Pelo contrário, como se demonstra quotidianamente, difundem-se o poder arbitrário, os interesses egoístas, a injustiça e o abuso, a violência em todas as suas expressões. O homem encontra-se mais isolado e a sociedade mais dividida e confusa, salientou. S. Paulo aí está como exemplo de anunciador da Boa Nova. A primeira e fundamental tarefa da Igreja, acrescentou, é "alimentar-se da Palavra de Deus". E citou a célebre frase de S. Jerónimo: "Quem não conhece as Escrituras, não conhece o poder de Deus nem a sua sabedoria. Ignorar as Escrituras significa ignorar a Cristo".
Numa outra alocução de Bento XVI sobre o Sínodo, a 14 deste mês, o papa falou de interpretações que negam a presença real na história. Referiu-se à exegese moderna, ao seu valioso contributo, mas também aos riscos e aos problemas que dela podem advir. A constituição "Dei Verbum" do Vaticano II oferece duas indicações metodológicas para um adequado trabalho exegético. Confirma aquele documento a necessidade do uso do método histórico-crítico. O facto histórico é uma dimensão constitutiva da fé cristã. A história da salvação não é uma mitologia, mas uma verdadeira história e por isso há que estudá-la com os métodos da rigorosa investigação histórica.
Mas, prosseguiu Bento XVI, a história bíblica tem outra dimensão, a da acção divina. Como qualquer obra literária a Sagrada Escritura deve interpretar-se com o mesmo espírito com que foi escrita. Deve-se por conseguinte interpretar o texto tendo em atenção a unidade de toda a Bíblia, que hoje se designa por exegese canónica; deve ter-se presente a tradição viva de toda a Igreja e, finalmente, importa observar a analogia da fé.
Só quando os dois níveis metodológicos, o histórico-crítico e o teológico são tidos em consideração, se pode falar de uma exegese teológica. Alude Bento XVI aos extraordinários progressos obtidos nos últimos tempos quanto ao primeiro nível, mas observa que o mesmo não se pode dizer do outro nível; muitas vezes o nível representado pelos referidos elementos teológicos está ausente. Desde Leão XIII, da criação da École Biblique de Jerusalém e do Pontifício Instituto Bíblico, passando por tantas realizações e iniciativas levadas a cabo ao longo do séc. XX para se conhecer melhor e interpretar com mais rigor os livros sagrados percorreu-se um longo caminho.
Mas, diz o papa, a falta de elementos teológicos na exegese, traz consequências graves: a Bíblia é considerada apenas como um texto do passado, a exegese não é realmente teológica, tornando-se pura historiografia, história da literatura; outra consequência ainda mais grave é que quando desaparece a hermenêutica da fé indicada na "Dei Verbum" surge outro tipo de hermenêutica, uma hermenêutica secularizada, positivista, que leva a concluir que o Divino não aparece na história humana. Cria-se assim um fosso profundo entre exegese científica e "lectio divina". E daqui resulta uma forma de perplexidade na preparação das homilias. Quando a exegese não é teologia, a Sagrada Escritura não pode ser a alma da teologia e, vice-versa, quando a teologia não é essencialmente interpretação da Sagrada Escritura na Igreja, esta teologia não tem qualquer fundamento.
Por isso, acrescenta o papa, para a vida e para a missão da Igreja, para o futuro da fé, é absolutamente necessário superar este dualismo entre exegese e teologia. A teologia bíblica e a teologia sistemática são duas dimensões de uma única realidade, a teologia. De acordo com a "Dei Verbum", deve o Sínodo não esquecer este ponto. Será pois necessário alargar a formação dos futuros exegetas para abrir realmente os tesouros da Sagrada Escritura ao mundo e a todos nós.
Noutro trabalho a publicar brevemente abordaremos com maior desenvolvimento o tema deste Sínodo dedicado à Palavra de Deus.

Isso é comigo?...


Luís Miranda

A Santidade é inconveniente, assim a olham "as prioridades" do nosso tempo. E, como sempre, de cada vez que falamos no tema "cheira" (quase sempre também) a algo bafiento…
Começamos um mês, o de Novembro, marcado pelo ritmar da vida a partir da vida de Deus em nós. Habituados que estamos a sermos "tarefeiros que esquizofrenicamente correm para todo o lado e para lado nenhum", pode parecer um convite à demissão do compromisso humano, social e ético o grito de Deus: "Sede Santos porque Eu, o vosso Deus, sou santo" (Lev 19,2).
Outros há, também, que acham a santidade interesseira, esses reconhecem-lhe que a sua única identidade (e eventualmente valor?!) é a de ser um desafio ético, moral, que a Igreja faz (segundo alguns, impõe!) para que os cristãos sejam "bem comportadinhos", deste modo a palavra santidade para estes torna-se, apenas e só, num refrão monocórdico que é repetidos de tempos a tempos para que a moral e os bons costumes não se percam.
O que eles não sabem de verdade é que a Santidade é mesmo inconveniente e interesseira!
É inconveniente porque obriga positivamente a rever conceitos e critérios. Obriga a revisitar opções que eternamente adiamos para as definirmos e com elas nos comprometermos, diante de um Deus que não se demite do homem nem o abandona ao triste fado do tempo que corre sem mais.
É profundamente inconveniente diante da acomodação ao já conquistado, porque obriga a repensar, em cada passo, a vida como um caminho sempre andado e sempre a recomeçar, não como um eterno retorno, mas sim como uma oportunidade para crescer em profundidade, em verdade, em humildade.
Sendo inconveniente a Santidade torna-se também interesseira pois o seu fim último (e primeiro) é transformar a vida do homem num projecto que jamais a mente humana poderia alguma vez sonhar ou conquistar: fazer da finitude eternidade!
A Santidade rasga horizontes. Abre no tempo a janela do infinito e faz com que o homem se possa olhar a partir do que é verdadeiramente (aos olhos de Deus) e não do que tem. É este o seu grande interesse! É por isso que ela se torna profundamente perigosa (e torna também perigosos os cristãos!), pois como dizia a pobre Mendiga de Deus Teresa de Calcutá: "Se vos proclamam santos, não vos colocareis a vós próprios num pedestal. O conhecimento de nós mesmos faz-nos ajoelhar".
Diante da tão propagandeada crise que vivemos, a Santidade é mesmo inconveniente e interesseira porque faz da fé um compromisso que não aliena nem demite de nada o homem, tão somente o compromete mais com o drama de todos e de cada um, com o drama da história, dado que "não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no coração de um discípulo de Cristo" (cf. Gaudium et Spes 1).

Pémios Nobel


Teresa Martins

As diversas notícias que nestes dias nos têm chegado sobre a atribuição do «Prémio Nobel» a diversas personalidades, e também o facto de trazer em mão «O Livro das Lendas», de Selma Lagerlof, a primeira mulher a ser agraciada com esta honrosa distinção, levou-me a, primeiro, agradecer à amiga que me emprestou esta pequena/grande maravilha, tão velhinha de aspecto exterior (vejo na dedicatória que lhe foi oferecida a ela no "Natal de 1950"), mas tão actualizada no seu conteúdo e que, simultaneamente, em tom verdadeiramente poético, nos põe a nu os costumes e toda a realidade da época… Estou tão grata à minha amiga, que não podia deixar de o dizer publicamente… Esta relíquia, aparentemente tão humilde e discreta, inicia-se, precisamente, com «A Lenda de uma Dívida» ("contada no banquete Nobel, a 10 de Dezembro de 1909")!… Uma "Dívida" que, em "sonho", durante a viagem de comboio a caminho de Estocolmo, onde a honra a espera, leva Selma a viajar até ao Céu, onde sabe encontrar o «velho pai», que já antevê «recostado numa poltrona, a ler a saga de Fritjof…», para lhe pedir auxílio, pois se acha «crivada de dívidas»! Mas, quando o pai a ouve falar de uma dívida tão grande, dir-lhe-á, por certo, que naquele delicioso lugar, «como nos velhos castelos da Vermlândia, há de tudo, menos dinheiro!…» Porém, ao aperceber-se de que a dívida fabulosa é, em primeiro lugar, a ele, por a ter obrigado «a ler e reler Tegner, Runeberg, Andersen…» Por a terem ensinado (eles, pais) a amar os contos, a leitura… E quando lhe confessar que a sua dívida vai além dos humanos à Natureza por inteiro… e passa por todos os que a leram, a ela, Selma, e publicitaram o seu nome, e àqueles que «forjaram e enriqueceram a língua e a ensinaram a ela a manejá-la… E à Academia Sueca…» Então o pai, por certo, dir-lhe-á que «essas dívidas nem no Céu se podem pagar, quanto mais na Terra…
Daqui, e ainda no campo maravilhoso da gratidão, senti-me impelida a saber pormenores da vida e personalidade de Selma Lagerlof e também de Alfredo Nobel… Sim, porque, ao fazer-se a divulgação anual dos cinco laureados com este valioso (duplamente valioso!) prémio, talvez fosse justo que se informassem os menos esclarecidos sobre a vida e personalidade do homem que, por testamento («datado de 27/XI/1895 e aberto em Estocolmo em 30/XII/1896») legou o rendimento da sua enormíssima fortuna para que, anualmente, «fosse dividido em cinco partes iguais, constituindo cinco prémios destinados a recompensar "o espírito e a paz" nas suas mais sublimes expressões»! Pelo que li, a vida de Alfredo Nobel impressionou-me por inteiro… Como dizem na TV, «vale a pena saber mais…» E não me impressionou menos o que a Comunicação Social me disse sobre o francês Jean-Marie le Clézio, a quem foi atribuído o Prémio Nobel da Literatura 2008!… Pela mesma fonte informativa, fiquei a saber que há livros seus já traduzidos em português… Vamos a isso?

Padre Américo: pioneiro dos hospitais de acamados


Mário Nunes

Américo Monteiro de Aguiar nasceu no lugar de Bairro, freguesia de Galegos, Penafiel, em 23 de Outubro de 1887, portanto, fazia ontem, 121 anos.
O pai encaminhou-o para o comércio, embora a mãe visse nele uma vocação para o sacerdócio. Uma loja de ferragens, no Porto, possibilitou-lhe conhecer o homem que lhe viria a abrir as portas para ser padre, o Cónego Dr. Manuel Luís Coelho da Silva, futuro Bispo de Coimbra. Primeiramente, e após ultrapassar as mais diversas fases da sua vida, incluindo ter vivido em Moçambique, quis ser frade franciscano. Chegou a tomar o hábito de noviço, porém, na altura da admissão na Ordem, foi rejeitado pelo Cabido. Abatido e desencorajado pediu admissão no Seminário do Porto, estabelecimento que, também, não o aceitou. Dirigiu-se a Coimbra e D. Manuel Coelho da Silva acolheu-o no Seminário e ali foi ordenado sacerdote. Devido ao esforço que fizera com os estudos, sentiu-se debilitado, fisicamente, e solicitou ao Prelado autorização para tratar dos pobres. Aí começou a sua cruzada de bem-fazer. A vontade de ser franciscano veio tornar-se realidade, porque se desprendeu de tudo e, tal como S. Francisco, entregou-se à missão de acudir aos desgraçados, marginalizados, carentes de amor, abandonados e doentes, iniciando a sua tarefa pela criação da Sopa dos Pobres, em Coimbra, prosseguindo com visitas a suas casas.
Bateu de porta em porta e de instituição em instituição, vindo a interessar-se pelos rapazes famintos de pão e de amor. As colónias de Férias ou de Campo do Gaiato da Rua ou da Baixa de Coimbra, em S. Pedro d´Alva e a seguir a sua grande obra, as "Casas do Gaiato", com a compra do edifício e terreno no concelho de Miranda do Corvo, por quarenta mil escudos, foi a sementeira para construir futuros, ou seja, somaram mais um marco na sua entrega aos pobres. Buscando o poema de Miguel Torga "Todo o semeador / semeia contra o presente / Semeia como um vidente / a seara do futuro / sem saber se o chão é duro / e lhe recebe a semente", vemos que Padre Américo foi um semeador de esperança, lançando a semente na "terra" dura, esperando, com esperança, colher os frutos.
Multiplicou as obras do gaiato, pelo País, Açores e África, utilizando na fundação o princípio que permanece: "dar às crianças o alimento (pão) como pretexto para educar para a vida", uma obra de rapazes, para rapazes e pelos rapazes, para formar homens de bem, honestos, trabalhadores, chefes de família, respeitados pela sociedade.
Lançada a semente arrancou com os Lares e o Património dos Pobres (construção de casas para abrigar as famílias a viver em condições infrahumanas), criando, mais tarde, o hospital de acamados, antecipando-se, em dezenas e dezenas de anos, aos hospitais de acamados que, actualmente, existem sob a responsabilidade de Instituições vocacionadas para o efeito, exemplo das Misericórdias. Ao criar o "Calvário" afirmou ser o seu último grito, o canto do cisne. E, não se enganou. A morte chegou, por acidente de automóvel, em Valongo, a 16 de Julho de 1956.
Nos últimos tempos, as Casas do Gaiato têm estado na Comunicação Social pelas mais diversas razões. Não compreendemos que senhores ou senhoras de gabinetes aquecidos e outros interesses pessoais e ou institucionais ponham em causa uma obra respeitável, grandiosa, humana e portadora dos mais extraordinários valores do Homem para o Homem. Somente, na minha opinião, por desconhecerem um percurso de amor, em prol da sociedade, daqueles que a mesma sociedade atira para os vícios, pobreza e morte, em vida. Mas, o Padre Américo, como samaritano, perdoa-lhes as ofensas feitas à sua memória e à obra que deixou na Terra
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Liberdade de escolha


Jorge Cotovio

Normalmente, quando se fala de "liberdade de escolha" queremos referir-nos ao direito que assiste aos pais de escolher a escola – estatal ou não estatal – para os seus filhos, tendo em conta as suas preferências, as suas convicções religiosas, o seu estilo de educação. Infelizmente, é uma causa ainda muito longe de estar ganha, tendo em conta os inúmeros entraves que o Estado continua a impor às famílias, obrigando-as a matricular os filhos em escolas pré-determinadas, ou forçando-as a pagar propinas no caso de escolherem uma escola privada. Mesmo sabendo que há (poucas) excepções a esta regra, é assim que acontece. Ora tem sido a Igreja, desde há muito, a instituição que mais tem lutado – e bem! - pela efectivação deste direito dos pais, pois são eles os primeiros educadores dos seus filhos.
Deixemos agora o mundo da escola e entremos dentro da Igreja. Como encaramos nós esta "liberdade de escolha" noutras situações? Por exemplo, no casamento. Será que é fácil casar numa paróquia (isto é, numa capela ou numa igreja) diferente da pertencente à área de residência dos noivos? Ou os aspectos burocráticos, aliados à pouca abertura de alguns párocos a estas "disfunções" deixam uma amarga imagem de Igreja na mente dos jovens casais? O mesmo se diga dos baptizados, da catequese, dos funerais, da missa dominical, etc.
É claro que, idealmente, todas estas caminhadas e celebrações tão nobres e sublimes devem ser vividas em comunidade, porque é esta a forma de ser Igreja. Mas a comunidade que faz tudo isto (se fizer…) terá de ser, obrigatoriamente, a comunidade onde (por acaso) se reside?
Hoje, na era da mobilidade geográfica, da fácil circulação, terá cabimento exigirmos às pessoas irem à missa da paróquia da residência e integrarem-se nas suas actividades pastorais? Se, acaso, as pessoas se sentirem melhor noutra comunidade – porque mais viva, dinâmica, acolhedora – por quê impedi-las ou dificultar-lhes a opção?
Tomáramos nós que haja gente a procurar-nos, pois não temos tempo (?) de ir à procura da ovelha perdida. (Isto é, estamos pré+ocupados com tanta coisa, que nos falta disponibilidade, paciência, ousadia, criatividade para o essencial, para a "evangelização"). E quantas não são as vezes que até estes que ainda nos vão procurando são tão mal acolhidos, tão mal "seduzidos" pela nossa forma de estar, de olhar, de falar, de dar testemunho de Jesus Cristo libertador.
Mesmo aqueles que escolhem outra paróquia por razões, digamos, "privadas" e superficiais (igrejas bonitas ou com "prestígio", facilidade de estacionamento, missas com cânticos sonantes, homilias curtas e/ou com cristãos pertencentes a estratos sociais privilegiados, bons horários de catequese, etc., etc.), mesmo esses, dizia, devem ser respeitados na sua escolha e (muito) bem acolhidos. Naturalmente, incumbir-nos-á de, com oportunidade e paciência, os irmos esclarecendo das razões mais profundas destes actos, mas compreendendo sempre as suas decisões.
Perante os novos contextos societários, cabe-nos flexibilizar estruturas, desburocratizar processos, agilizar modos de actuação, para irmos ao encontro (e não de encontro) das ovelhas do redil, e das outras.
Talvez também precisemos de flexibilizar os nossos músculos faciais, às vezes tão rígidos, tão tensos, que até assustam. Tentemos relaxá-los, e sorrir, e acolher, com a alegria do Espírito Santo, mesmo no meio das tribulações, como há poucos dias nos dizia S. Paulo.
Nós até sabemos todas estas coisas – tão simples e tão evidentes, que nos passam tantas vezes despercebidas…
Temo-las na cabeça, é certo. Mas como são difíceis de descer escassos 20, 30 ou 40 cm até ao coração, até à vida!

Inventariação da Paróquia de Lorvão


José Eduardo R. Coutinho

No passado dia 28 deste mês, ficou concluída a tarefa de inventariação da paróquia de Lorvão, com um total de 619 fichas e respectivas fotografias, referentes à igreja monástica, à que fora paroquial e às capelas, dos lugares, para o que muito contribuiu a colaboração do pároco, Padre Cândido Plácido da Costa, bem como do Dr.José Rodrigues Pisco e do senhor José Jorge Rodrigues Marques.
Mencionada no Paroquial Suevo, ou, Divisio Teodemiri – redigido entre 572 e 582-585 -, como uma das sete zonas pastorais da diocese de Conímbriga, Lurbine teve pujante cristandade, desde remota idade, como documentam as fontes arqueológicas e narrativas; e, do mosteiro paleocristão, em que era abade, veio o primeiro bispo conhecido, Lucêncio, que, nessa condição, assina as actas do 1º e do 2º concílio provinciais de Braga, realizados em 561 e 572, respectivamente.
Com a invasão e ocupação do território, actualmente português, pelos Muçulmanos (713-717), campeou a desorganização das estruturas sociais estabelecidas e, embora muitas comunidades eclesiais mantivessem a fé, de maneira bastante precária, o directo contacto com a civilização islâmica levou à geral arabização dos cristãos, ficando chamados Moçárabes.
Tal circunstância motivara o desaparecimento das principais autoridades civis e religiosas, porém, as campanhas militares de Afonso III, de Leão, reconquistaram Coimbra, em 878, e, fazendo repovoar as áreas anteriormente ocupadas, incrementaram o ressurgimento público da vida celebrativa, comprovada na multiplicidade de ermidas, igrejas e mosteiros entretanto fundados e constituintes de novas paróquias rurais.
Foram essas, de facto, as origens históricas desta veneranda casa monástica, desde início dedicada a São Mamede e São Pelágio, só por si afiançadores de um culto deveras antigo, a qual, nos começos do século X, em 907, é, também, um importante centro cultural, de povoamento e colonização, cujo crescente prestígio perdurara, mesmo sob domínio islâmico, pós as razias de Almançor, em 987, que o respeitou e dispensava de pagar o tributo exigido a todas as outras instituições cristãs.
Sempre habitado por monges, a regra beneditina foi ali introduzida, em 1051. Tendo vivo alento a comunidade, após a 2ª reconquista cristã de Coimbra, por Fernando Magno, em 9 de Julho de 1064, as sucessivas doações recebidas trouxeram-lhe máxima prosperidade, a ponto de Dom Henrique e Dona Teresa o terem doado, em 29 de Julho de 1109, à Sé de Coimbra, que vivia em manifesta penúria, sem ter, ao menos, as necessárias alfaias de culto.
Quando foi anulado o casamento de Dona Teresa (filha de Dom Sancho I), com Afonso IX de Leão, a infanta-rainha regressou a Portugal e procurou fazer vida claustral. A pretexto do pretenso relaxamento do mosteiro, expulsou os monges que, em parte, seguiram para Pedroso; apelando, estes, para Roma, a Santa Sé considerou o procedimento ilegal, mas, deu razão à infanta que, ali, quis ter acolhimento.
Para satisfazer o ensejo, a casa monacal foi-lhe entregue, em 24 de Dezembro de 1200, pelo rei, acompanhado pelo bispo de Coimbra, Dom Pedro, e pelo Dom Abade de Alcobaça, que lhe lançou o hábito de São Bernardo, assim como a outras senhoras, que a acompanhavam, na clausura. Dessa data até 1206, admitiu religiosas cistercenses e dedicou a instituição a Santa Maria.
Falecida em 18 de Junho de 1250, lá foi sepultada, na igreja, junto do túmulo da irmã, Dona Sancha, cuja ossada trouxera de Celas, onde esta havia fundado um mosteiro, muito semelhante.
Devido às virtudes exercidas, de maneira heróica, e pelas intervenções consideradas milagrosas, de comprovada autenticidade, foi beatificada, com as irmãs, pelo Papa Clemente XI, através da bula Sollicitudo Pastoralis Officii, de 13 de Dezembro de 1705.
Há, ainda, duas outras famosas personagens acolhidas a esta casa monástica: a infanta Dona Branca, filha de Dom Afonso III e heroína do poema homónimo, de Almeida Garrett, e Dona Maria Brandão, inspiradora de Crisfal.
Graças aos plúrimos benefícios e privilégios acumulados, o mosteiro mantinha o padroado, com direitos reais, sobre Botão e Esgueira, e fazia a apresentação dos vigários para as igrejas de Abiul, Almoster, Boidobra, Botão, Brasfemes, Cacia, Couto de Cima, Esgueira, Foz de Arouce, Salreu, Santiago da Guarda, São Martinho de Árvore, Sazes de Lorvão, Serpins, Souselas, Torre de Vilela, Treixedo e Lorvão.
Por decreto de 1834, foi proibido de receber noviças e, por força da morte lenta, desse modo preparada para extinguir as ordens religiosas femininas, ficou privado de meios de subsistência – denunciados por Alexandre Herculano –, sofreu extrema miséria e teve o falecimento da última freira em 8 de Julho de 1887.
Maioritariamente, os bens patrimoniais, acabados de registar, pertencem às antigas dependências monásticas, entregues à paróquia, e constituem uma ténue amostragem do muito que havia, pois, a dispersão de altares de talha e de imagens, pelos lugares vizinhos e pontos distantes da diocese, manifestam o desmantelamento sofrido, enquanto algumas boas esculturas calcárias, quatrocentistas e quinhentistas, terracotas seiscentistas e estofadas setecentistas atestam o poderio económico das encomendantes e os óptimos critérios estéticos seguidos, igualmente testemunhados na variada paramentaria deixada, nos poucos objectos de metal, nas pinturas, executadas sobre madeira e tela, e nos restantes objectos, incluindo painéis azulejares, das últimas centúrias indicadas.
Realmente, o que subsiste comporta um ínfimo teor do que foi roubado: os inestimáveis pergaminhos, manuscritos e códices membranáceos medievais, como o Liber Testamentorum e o comentário ao Apocalipse, levados para a Torre do Tombo; os incunábulos da Vision Delectable, de 1480, e da Vita Christi, impressos em Lisboa, em 1498, encaminhados para a Universidade; as alfaias, lambris, pratas e paramentos incorporados nos museus estatais; e o mobiliário abacial, também integrado num específico, lisboeta.
Bastantes outros tiveram a rapina de conceituados gatunos, como sucedeu aos riquíssimos valores levados para exposições nacionais, na capital, que jamais voltaram, e às centenas de quilos, em prata, dos objectos fundidos na Casa da Moeda e pilhados do santuário, que continha muitos bens alcobacenses e incluía espécimes em ouro, medievais, ocorridos na segunda metade do século XIX.
Já, por diferentes meios, intelectuais de Coimbra e magnates citadinos recorreram a carros de bois para fazerem transportar, quanto puderam carregar, para as próprias casas, num autêntico fartar de vilania liberal e maçónica: esta caterva de gente reles teve o desplante de deitar, ao riacho contíguo ao mosteiro, a biblioteca e o recheio do velho cartório, deixado das escolhas efectuadas sob ordens dos mesmos criminosos de lesa-cultura nacional, evocando defendê-la.
Visto bem, o sucedido, a destruição da memória, a traição cometida e a desfaçatez dos estatizantes hodiernos, em persistirem na posse ilegítima destes pertences da(s) igreja(s) espoliada(s) é a demonstração mais perfeita de todos eles permanecerem vinculados na mesma irmandade e na igual tacanhez mental, geradora de feudos nefandos, porque rogadas na ostentação indevida do quanto preconizam, contraditoriamente: a separação da Igreja do Estado, mas, dizendo seu o que é dos fiéis cristãos e das suas comunidades paroquiais.

Igreja Segura: um projecto a pensar nas pessoas


Promovido pelo Instituto Superior de Polícia Judiciária e Ciências Criminais em parceria com diversas instituições estatais e da sociedade civil, o projecto Igreja Segura – Igreja Aberta tem chamado a atenção de todos os interessados para os problemas que afectam a segurança e a conservação de um nicho muito relevante do património cultural português: os templos afectos ao culto católico espalhados um pouco por todo o País. Como é mais ou menos conhecido, muitos desses templos – igrejas, capelas, santuários – apresentam um conjunto sério de debilidades, nem todas resultantes apenas de uma progressiva degradação ditada por uma longa vida multissecular. Factores como o envelhecimento das comunidades, sobretudo em espaços rurais, ou como o cada vez menor compromisso em causas sociais alargadas, tão marcantes nos amplos anonimatos das cidades, obrigaram ao encerramento, definitivo ou sazonal, de muitos desses templos, que também por essa via ficaram ainda mais vulneráveis, desde logo ao abandono e aos assaltos.
De quando em vez, as notícias, por regra alarmantes, de roubos e de actos de vandalismos trazem os problemas da segurança ao convívio das preocupações
quotidianas dos cidadãos, que não apenas dos políticos. O certo, no entanto, é que ainda estamos longe de ver garantida uma atitude de empenhamento colectivo que contrarie este difícil cenário. Com efeito, não se encontram asseguradas rotinas tão simples como a verificação do estado dos edifícios, ao menos uma vez por ano, a constatação do estado das entradas e respectivas portas e janelas, o controlo de chaves, a implementação de um registo cadastral/inventário dos bens culturais, o resguardo particular daqueles bens que, por dimensão ou qualquer outro factor, requeiram especial atenção.
Nesse sentido, um projecto como o Igreja Segura – Igreja Aberta valerá sempre mais pelo que ele significa ao nível do despertar de consciências do que propriamente pelos resultados materiais que possa alcançar, sempre magros face à tremenda realidade a enfrentar. Seja como for, as intenções que mobilizam os seus protagonistas devem e têm de ser partilhadas por todos, pois intervir na custódia do património cultural é muito mais do que exercer um direito de propriedade. É sobretudo promover uma ampla comunhão entre gerações, as passadas e as futuras, por quem tem a graça de viver este presente que nos foi dado. Vamos declinar tal responsabilidade?


João Soalheiro,
Director do Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igrej
a

Câmara de Miranda alerta para impasse nas obras do Mosteiro de Semide


"Já perdemos um castelo, será que no século XXI se vai também perder um claustro quinhentista?", questiona a autarquia de Miranda do Corvo que, dado o impasse no arranque da segunda fase de recuperação do Mosteiro de Semide, voltou a alertar o Governo para a necessidade urgente das obras.
A recuperação integral dos edifícios monásticos foi alvo de um protocolo em 1999, entre o Instituto do Emprego de Formação Profissional e a Direcção-Geral dos Monumentos Nacionais, numa cerimónia que juntou dois secretários de Estado do Governo de António Guterres, Paulo Pedroso e Maranha das Neves. Quase nove anos depois, apenas foi concluída a primeira de três fases da obra, que arrancou em 2003, com a consolidação e cobertura dos edifícios destruída por dois incêndios no século XX, finalizada no primeiro trimestre de 2004.
Orçada em 1.893.650 euros, a segunda fase de intervenção engloba a recuperação total dos imóveis, onde se inclui o degradado claustro quinhentista, que ruiu parcialmente a 25 de Novembro de 2006, na sequência de uma noite de temporal. Perante todas estas situações e contratempos, a Câmara teme que o próprio Inverno coloque em causa a integridade do que resta do claustro quinhentista e não compreende o que está a passar.
A segunda fase de recuperação do imóvel estava prevista iniciar-se em 2006, mas um despacho emitido em 31 de Agosto desse ano, pela Direcção-Geral do Orçamento, adiou vários projectos de obras públicas na região.

Oliveira do Hospital: comunidade cristã vai construir nova igreja


A paróquia de Oliveira do Hospital colocou recentemente um cruzeiro no terreno onde irá nascer o futuro centro paroquial da cidade. Apesar de ainda não haver projecto, nem verbas para a sua concretização, a ideia foi começar já a " familiarizar" os oliveirenses com o local onde se pretende erguer a nova igreja.
Não foi o lançamento da primeira pedra da nova igreja, mas na prática simbolizou a vontade da paróquia de Oliveira do Hospital em construir um novo centro paroquial. O local já está escolhido, e situa-se na parte de cima de Quinta do Margarido, numa zona privilegiada da cidade.
"Poderá ser um chamamento para as pessoas irem acordando para um projecto que é cada vez mais uma necessidade", refere o pároco da freguesia, Padre António Borges de Carvalho, lembrando que a actual igreja começa a não ter espaço para os muitos fiéis que, nomeadamente, ao domingo querem participar nas celebrações. "As igrejas não são grandes, como sabemos, e estão a romper pelas costuras. De hoje para amanhã ainda vai ser pior, porque com a falta de padres, algumas paróquias já não têm missa ao domingo e as pessoas tendem a concentrar-se na cidade".
Mas nem só nas missas se nota a falta de espaço, o problema coloca-se também ao nível das restantes actividades da paróquia, como é o caso da catequese. "É um problema terrível, não temos sequer um salão para reuniões, como existe noutras freguesias, e para a catequese tem-nos valido as instalações da Obra D. Josefina da Fonseca, mas por imposição legal, a partir do momento em que for remodelada não temos onde dar a catequese às crianças", adverte o Padre Borges, lembrando igualmente o número crescente de crianças que tem vindo para a paróquia da cidade.
O facto de se ter colocado no local uma cruz, "é apenas um sinal para lembrar que aquele poderá ser um local sagrado", mas também uma forma de dizer às pessoas que "o projecto não está esquecido". Apesar da ideia já ter alguns anos – há pelo menos uma década que se fala na construção da nova igreja – o Padre António Borges considera, acima de tudo, que não se deve deixar esmorecer, pois "Seia, que inaugurou agora o seu novo centro paroquial andava com isto desde 1940, por isso não há-de ser impossível levarmos a obra por diante". "Esperemos que a conjuntura melhore, porque actualmente não é fácil pedir o que quer que seja, a crise apanhou a todos", afirma, pretendendo para já deixar um "sinal de esperança".
Mais que a ideia de construir uma nova igreja, o pároco entende que se deve apostar num complexo paroquial, com um conjunto de salas e de espaços capazes de dar resposta às novas necessidades da actividade cristã. Mas "nada de luxos", vai dizendo o pároco, que embora seja de opinião que se deva privilegiar o espaço interior, julga que seria "criminoso, num tempo em que há famílias a passar por tantas dificuldades, gastar dinheiro só para mostrar monumentos".
Apesar de ainda não existir projecto do futuro centro paroquial, é o reputado arquitecto Dias Coelho que está, nesta fase, encarregado do processo, ele que é natural da Bobadela e acompanhou todo o projecto de requalificação das ruínas romanas.
No próximo dia 2 de Novembro, dia dos fiéis defuntos, o cruzeiro vai ser benzido, e o padre António Borges convida desde já a comunidade de Oliveira do Hospital a visitarem o local, porque muitas deles "não conhecem e queremos que aquilo seja um elo de ligação para todos nós", afirma.

Universidade candidata a Património da UNESCO



A Universidade de Coimbra pode vir a ser considerada, em breve, como património mundial. Pelo menos integra a lista de monumentos e lugares como possíveis de concorrer àquela distinção. Até ao momento, Portugal tem 13 lugares distinguidos com o prestigiado título. Outro lugar que pode vir a concorrer é a Mata Nacional do Buçaco.

“Os vicentinos têm obrigação de anunciar e praticar o bem”



- afirmou Mons. Vítor Feytor Pinto na celebração do Dia Nacional Vicentino, este ano feito em Coimbra



"As conferências vicentinas e a nova evangelização" foi o tema da palestra proferida por Mons. Feytor Pinto, no dia 26 de Outubro, na celebração do Dia Nacional Vicentino. As comemorações tiveram lugar na paróquia de S. José, onde as três conferências vicentinas ali existentes, concretizaram, há três anos, o sonho de erguer o Centro de Acolhimento João Paulo II.

Dia Nacional Vicentino comemorado em Coimbra


"Temos, hoje, dificuldades em recriar ou descobrir métodos para anunciar o Evangelho". A afirmação é do Padre Vítor Feytor Pinto que proferiu, em Coimbra, no passado dia 26 de Outubro, uma palestra sobre o tema "As Conferências Vicentinas e a Nova Evangelização". A paróquia de S. José foi o local, este ano, escolhido para comemorar o Dia Nacional Vicentino. Até porque foi nesta paróquia que três Conferências Vicentinas se uniram para concretizar um projecto em comum – o Centro de Acolhimento João Paulo II. Com sede própria, inaugurada em Junho de 2005 pelo Bispo de Coimbra, D. Albino Cleto, este centro desenvolve inúmeras actividades de apoio a famílias e pessoas carenciadas da cidade, ultrapassando já as 600 famílias apoiadas. Neste momento tem a funcionar um Curso de Gestão e Economia doméstica, com 25 participantes e outras iniciativas ainda em fase de organização.
Para o presidente do Secretariado Nacional da Pastoral da Saúde, o papel do laicado é fundamental no desenvolvimento de toda a acção evangelizadora. "O leigo tem que estar presente, consciente e atento à sua comunidade", afirmou perante duas centenas de vicentinos presentes. Para o Padre Vítor Feytor Pinto, toda a Pastoral da caridade deve ser criativa – devem-se reinventar novas formas de agir e de evangelizar. "Os vicentinos têm por obrigação de levar à prática a mensagem de Frederico Ozanan", o fundador da Sociedade de S. Vicente de Paulo, que foi para muitos a razão da esperança.
O Padre Vítor Feytor Pinto confessou que foi em Coimbra e com o seu pai que ao longo de toda a sua vida de vicentino, que descobriu a vocação sacerdotal. Enquanto jovem, acompanhou por diversas vezes, o pai, na visita aos doentes e aos pobres da zona da Sé Velha.
A Sociedade de S. Vicente de Paulo foi fundada em 23 de Abril de 1833 por um grupo de 7 jovens universitários, liderado por Antoine Fréderic Ozanam, estudante de Direito na Sarbonne, então apenas com 20 anos de idade. A Sociedade de S. Vicente de Paulo, no primeiro ano designada de Sociedade da Caridade -, surgiu para dar resposta às críticas com que os estudantes ateus atacavam os estudantes católicos: "os cristãos não praticam o que pregam. Onde estão as sua
obras de caridade?"
Ozanam e os seus seis amigos, adoptando por patrono S. Vicente de Paulo, o Pai da caridade (que viveu entre 1580 e 1660 praticando uma solidariedade activa durante toda a sua vida), começaram então a procurar os pobres, visitando-os levando-lhes alimentos, roupas, ajuda, dedicação e a Palavra de Deus. É isso que os cerca de 1 milhão de vicentinos de 138 países, dos quais cerca de 13 mil em Portugal, continuam hoje a praticar.
Antes da celebração eucarística, presidida por D. Albino Cleto, foram homenageados os vicentinos com 25 e 50 anos de serviço voluntariado em prol dos mais necessitados. Também na cerimónia foram distinguidos os párocos que acompanham as conferências vicentinas da Diocese de Coimbra.


Miguel Cotrim



(Texto e Foto)

FIGURAS DA NOSSA PRAÇA


Adelaide Santos: vendedora de castanhas há mais de sessenta anos


Aos 84 anos, Adelaide Santos ainda aguenta muitas horas em pé, ao frio, a vender castanhas. É assim há mais de 60 anos. Diz que este pode ser o último Inverno ali, de fuligem colada ao rosto.
Alguns clientes chamam-lhe "velhota", ternamente. Brincam com ela – "Tenho muitas pessoas amigas, fregueses que gostam de mim e me compram castanhas, sabe?" – e ela esquece as dores nos ossos e na carne para responder à letra. Os anos não lhe roubaram o humor.
Quem pára na Praça 8 de Maio, o coração da Baixa de Coimbra, para lhe comprar castanhas, diz que são as melhores. "As desta senhora são sempre boas e quentinhas, não há uma podre. Quando tenho uns trocos no bolso compro", diz, de fugida, uma jovem.
A vendedora é generosa e atenta. Em cada cartuxo põe uma castanha "de brinde". E nem pensar em servir as castanhas esfriadas. "Teimosa!", reclama outra cliente. "Adelaidinha, elas estão boas, bem assadas, não é preciso aquecer!". Não adianta.
A preocupação com a qualidade do serviço prestado começa muito antes da venda. Levanta-se de madrugada para retalhar as castanhas e "tirar o podre", explica Adelaide.
Mas o corpo começa a ressentir-se da dureza do trabalho. A trombose e o derrame cerebral sofridos também pesam. "Passo muitas horas em pé. De vez em quando sento-me, mas tenho de assar as castanhas e de tomar conta dos clientes. É vida de pobre", solta, resignada. Incapaz de cumprir todas as tarefas, tem de pagar para lhe empurrarem o carrinho e lhe levarem as castanhas a casa. O facto de viver na Rua Corpo de Deus, a dois passos dali, mas bastante inclinada, é uma agravante. "Quando eu era nova, as coisas levavam-se bem, era eu que fazia tudo".
Adelaide vende uns 10 quilos de castanhas por dia. Sempre é melhor que nada, como sublinha. Até porque o valor da reforma não cobre sequer a conta na farmácia.
Não tem pregões porque não gosta de chamar ninguém. ""As pessoas vêm. Os meus fregueses já sabem como sou. Muitos conheceram-me nova". Os turistas também se lhe dirigem, de máquinas fotográficas estendidas. "Tenho retratos por todo o lado: Espanha, Brasil..." Ainda assim, Adelaide sente que este pode ser o seu último Inverno enquanto vendedora de castanhas. "Isto deve ser o fim. Já apanhei muito frio e muita chuva, levei muitos carregos. Agora não posso". Sabe que a profissão está a esfumar-se e não desperta interesse nos novos.

Centro Operário Católico precisa de obras


O Centro Operário Católico da Conchada (COCC) comemorou a 24 de Outubro o 17.º aniversário do seu Centro de Dia. A efemeridade foi aproveitada pelos responsáveis da instituição para dar a conhecer publicamente o seu trabalho e as principais dificuldades sentidas.
O Bispo de Coimbra, D. Albino Cleto, o pároco da freguesia, Padre Anselmo Gaspar, o presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Dr. Carlos Encarnação e o vereador da Cultura, Dr. Mário Nunes, participaram no almoço de confraternização.
José Santos, presidente do COCC, explicou aos jornalistas que a instituição tem de proceder a uma série de obras e melhoramentos de forma a responder às novas exigências da Segurança Social, no entanto, as verbas que possui são gastas na íntegra com os utentes e os funcionários.
Além do telhado novo e da substituição de janelas no edifício sede, a instituição terá de proceder à construção de um anexo, onde serão devidamente instaladas a lavandaria e a cozinha.
José Santos pediu à Carlos Encarnação para que a Câmara elaborasse o projecto, ao qual ele respondeu favoravelmente.
O Centro Operário Católico foi fundado há 57 anos. Tem três funcionárias e uma técnica estagiária paga pelo Centro de Emprego. No mesmo espaço onde se realizam as actividades do Centro de Dia e do Centro de Convívio celebra-se, semanalmente, a missa dominical presidida pelo Padre Anselmo Gaspar. Um salão no piso superior da instituição é também cedido para aulas de ginástica, capoeira e outras actividades, mas sem que daí resulte grandes benefícios financeiros para a instituição.

Escolas Católicas com a Casa dos Pobres e a Comunidade de S. Francisco


Realizado com assinalável êxito o III Festival SOLNEC, em Junho, no Estádio Cidade de Coimbra, as seis escolas católicas da diocese de Coimbra pertencentes ao NEC (Externato de João XXIII, Escola da Casa de Nossa Senhora do Rosário (Tavarede) colégios da Rainha Santa Isabel, S. José, S. Teotónio e Imaculada Conceição) terminaram oficialmente a campanha de solidariedade para com a Casa dos Pobres, iniciada no ano lectivo transacto, no âmbito do Programa SOLNEC. Desta forma, no passado dia 21 de Outubro, nas novas instalações da Casa dos Pobres, em S. Martinho, realizou-se uma sessão solene onde se fez o balanço da campanha e se entregou o montante recolhido (11 222 euros). Esta sessão contou com a presença do senhor Bispo de Coimbra, D. Albino Cleto, do vereador da Cultura da C.M.C., Dr. Mário Nunes, de representações do Governo Civil e Direcção Regional de Educação do Centro, de professores e alunos das escolas católicas e dirigentes, amigos e utentes da Casa dos Pobres. Também estiveram presentes responsáveis das instituições ajudadas pelo NEC nos últimos anos – ACREDITAR e APPACDM.
Depois de um momento cultural protagonizado pelos alunos do Externato de João XXIII, diversos oradores focaram a grandeza da obra levada a cabo pela direcção da Casa dos Pobres, agora em fase de conclusão, assim como a solidariedade e generosidade manifestadas pelos alunos das escolas católicas. Também a madrinha do projecto, Dra. Maria de Jesus Barroso Soares, se associou a este momento, enviando uma mensagem aos alunos das escolas católicas e aos utentes da Casa dos Pobres.
D. Albino Cleto mostrava-se satisfeito com o culminar de mais um projecto de solidariedade, fundamentado na essência da escola católica – a pessoa e a vida de Jesus Cristo -, esperando que estas iniciativas continuem com muita participação e entusiasmo de forma a promoverem maior qualidade de vida às pessoas mais carenciadas.
O NEC aproveitou esta oportunidade para fazer a apresentação pública do próximo projecto do programa SOLNEC: uma campanha de solidariedade a favor da Comunidade Juvenil de S. Francisco de Assis, de Eiras. A Ir. Teresa Granado, responsável pela Instituição, agradeceu este "projecto de amor" do NEC e partilhou a sua experiência de entrega aos mais desprotegidos da sociedade.
A sessão terminou com mais um momento cultural, agora proporcionado pelos alunos do Colégio da Imaculada Conceição, de Cernache.
Lembramos que no âmbito da campanha a favor da Casa dos Pobres (Projecto Vida Plena), foi eleita uma madrinha (Dra. Maria de Jesus Barroso) e um padrinho (Pedro Roma). Em 27/11, o NEC promoveu uma conferência de imprensa, com a presença da madrinha e de muitos jornalistas. Em 13/1, os utentes da Casa dos Pobres foram assistir ao desafio de futebol Académica x Sporting. Em 17/4, 60 alunos conviveram com cerca de 20 utentes no Basófias, saboreando um passeio pelo Rio Mondego. Em 16/5, realizou-se o espectáculo "Uma noite pela Casa dos Pobres". Em 27/5, realizou-se a 2ª conferência de imprensa. Em 7/6, promoveu-se o III Festival SOLNEC, no Estádio Cidade de Coimbra, com a presença de duas mil pessoas. Presentemente está a leiloar-se, na Net, a camisola do Miguel Veloso, oferecida por ele aquando da deslocação do Sporting a Coimbra. Além destas actividades conjuntas, as EC realizaram um rally paper, um Concerto de Reis, exposições de telas, festas da solidariedade, vendas de rifas, muitas visitas à Casa dos Pobres e participação em alguns "almoços dos românticos". O blog http://casadospobresdecoimbra.blogspot.com/ da Casa dos Pobres apresenta o percurso ilustrado das principais actividades da campanha.

UM NOVO MODELO DE BEM-ESTAR

José Dias da Silva


Em recente conferência de imprensa, D. António Marto, tendo como pano de fundo a actual crise financeira, falou do falhanço de um modelo de vida que dá prioridade ao “consumismo desenfreado” e da necessidade de “rever a relação com o dinheiro, as poupanças e o recurso ao crédito”. Denunciou um “sistema financeiro desligado da economia”, que se considera “como um fim”. Considerou obrigatória a revisão da remuneração dos dirigentes de instituições financeiras, que são “verdadeiramente escandalosas”.
Mas não se ficou apenas pelos dirigentes, pois neste momento todos devem envolver-se seriamente na criação de “novos modos de vida, novos modelos económicos e financeiros” e de se “interrogarem sobre práticas especulativas que visam a rentabilidade máxima a curto prazo”.
Estas palavras recordaram-me outras semelhantes, embora num tempo diferente, de João Paulo II: “Torna-se, por isso, necessário e urgente uma grande obra educativa e cultural, que abranja a educação dos consumidores para um uso responsável do seu poder de escolha, a formação de um alto sentido de responsabilidade nos produtores e, sobretudo, nos profissionais dos mass-media, além da necessária intervenção das autoridades públicas” (CA 36).
Todos percebemos que as sucessivas e crescentemente graves crises que nos vêm atingindo têm como denominador comum o dinheiro: a ganância do lucro imediato e do dinheiro fácil, ou na célebre expressão do anterior Papa, “a avidez exclusiva do lucro e a sede do poder a qualquer preço” (SRS 37).
Talvez se trate do que um bispo guatemalteco chamou, no Sínodo, uma «teologia da prosperidade», que apresenta a pobreza como ‘maldição’ e a riqueza como ‘bênção e prosperidade’. O que conta é ter dinheiro, que dá poder que permite fazer o que bem nos apetece. Perdemos a hierarquização das coisas. Deixámo-nos levar pela sede do dinheiro, mas também pelo imediato, pelo fácil, pelo “não estou para me chatear”, gastamos acima das nossas posses, não somos capazes de introduzir hábitos mais moderados e sóbrios. Isso, nem pensar, pois daria de nós uma má imagem e até a sensação de sermos uns pobres pelintras. E o resultado é que andamos muito mais “stressados”, multiplicámos o uso de medicamentos psicotrópicos, procuramos sedativos que nos ajudem a ver cor-de-rosa um mundo que não nos agrada.
Perdemos a noção do que é realmente importante na vida. Vivemos o superficial, o artificial, orientamo-nos pela opinião surgida “à mesa do café”, acreditamos, sem qualquer espírito crítico, na opinião de meia dúzia de comentadores. E até há muito boa gente que passa a vida a tentar mostrar o que não é.
Mesmo os mais responsáveis não resistem a um pecado que o pregador do Papa apontou ao comentar o episódio evangélico dos convidados para o banquete: trocamos o importante pela “pressa da vida”, pelo que consideramos urgente, mas que muitas vezes nada tem de urgente. “O que têm em comum estes diversos personagens (que recusaram o convite para o banquete)? Todos tinham algo urgente para fazer, algo que não podia esperar, que exigia imediatamente a sua presença... Está claro, então, que o erro cometido pelos convidados consistiu em abandonar o importante pelo urgente, trocar o essencial pelo contingente!”.
E são tantos os exemplos que podemos dar. Temos sempre tantas coisas “urgentes” que nos impedem de fazer o que é realmente importante. Encontramos alguém que gostaria que o ouvíssemos um bocadinho (importante), mas já vamos atrasados para uma reunião (urgente). Temos os filhos em casa a precisar de um momento de atenção (importante) mas surgiu um problema no escritório (urgente) e só chegamos noite dentro, cansados e incapazes de um gesto de carinho. Temos amigos a visitar ou a quem telefonar (importante) mas precisamos de acabar um trabalho (urgente) e fica para a próxima. Encontramos uma pessoa em dificuldade na rua (importante) mas já vamos atrasados para a missa (urgente). Sentimos umas dores persistentes (importante) mas temos o tempo tão ocupado (urgente) que não podemos ir ao médico.
E assim vamos vivendo uma vida “estúpida” onde não há espaço para o relaxe, o convívio com os amigos, os tempos de silêncio connosco próprios, a contemplação do que é belo, onde só há espaço para as correrias, para as urgências do dia-a-dia. E mais tarde, quando já não há remédio, descobrimos que realmente levámos uma vida “estúpida”. Percebemos tarde demais que com tantas urgências pouco urgentes não saboreámos nem demos a saborear o nosso amor aos filhos. Depois, quando eles crescem ou saem de casa, só então percebemos o que perdemos e não volta mais, por causa de “urgências” que podiam esperar um pouco mais e que podiam ser resolvidas se tivéssemos feito uma melhor gestão de tempo e sobretudo se tivéssemos sido capazes de hierarquizar as prioridades da nossa vida.
E (quem sabe?) se “ao chegarmos ao céu” S. Pedro, antes de nos deixar entrar, não nos perguntará: “Vens para aqui porque é urgente ou porque é importante?”
Talvez a gestão correcta deste binómio urgente-importante nos possa ajudar a encontrar um novo modelo de bem-estar. Sim, porque nós fomos criados para sermos felizes.

Uma pergunta que me incomoda

Nuno Santos


Um homem. Uma conversão. Algumas cartas. Muitos quilómetros.
Apetece-me começar pelo fim. Começar pelos cerca de 20 000 quilómetros percorridos num tempo e num contexto em que as deslocações não tinham a facilidade e a comodidade dos nossos tempos. Viagens longas e arriscadas…
As palavras das suas cartas trazem vida dentro. São palavras que rompem as fronteiras religiosas e étnicas (do mundo judaico) para se tornarem universais. Uma universalidade que tem força suficiente para se desprender do tempo e cativar homens e mulheres.
Esta é uma história com rosto. Tem um nome. Falo de Paulo. (Os exegetas falam em dois nomes Paulo e Saul – sem acento segundo as regras da gramática).
Falo de um homem que leva Deus dentro (…é Cristo que vive em mim - Gl. 3, 20a). Falo do entusiasmo próprio de quem faz do Evangelho a sua única lei. Assim se percebem as palavras: «Fiz-me tudo para todos, para salvar alguns a qualquer custo» (1 Cor. 9, 22b).
Precisamos de mais gente assim, capaz de levar Cristo às grandes cidades da vida que somos (neste mundo tão globalizado). Precisamos de homens e mulheres que no seu tempo e no seu espaço inscrevam no coração da humanidade a esperança, a alegria e o sentido.
Precisamos de trazer Cristo para a rua. Precisamos de deixar as nossas ‘sinagogas’ e ‘púlpitos’ e ocupar o nosso lugar aí onde tudo acontece e a vida se estabelece como encruzilhada – a rua (que nos habita e nos constitui).
Dizia Tolentino Mendonça, recentemente, que «As grandes horas da Igreja são horas paulinas». Tempos de busca, de procura, de viagem, de prisão, de tensão e de recomeço permanente.
Este é o Ano Paulino, dois mil anos depois do seu nascimento (as perspectivas exegética apontam o intervalo entre 5 e 10 depois do ano zero, como data provável do seu nascimento). Este ano é uma oportunidade fantástica para recomeçarmos, para rasgarmos novos horizontes e estabelecermos novos paradigmas de pertença a uma comunidade (que tem Cristo como centro).
Mas cuidado, porque não podemos ‘adocicar’ Paulo. Não nos devemos ‘entreter’ a catalogar ou conotar alguém que é maior do que ele mesmo. Essa arte que tanto jeito tem dado a uma espécie de estética cristã pseudo-intelectual, não nos serve.
Paulo é Paulo.
Nesta perspectiva, Paulo impõe-se fundamentalmente como uma pergunta e uma pergunta que me incomoda. Incomoda o meu comodismo, as minhas desculpas, as minhas desistências, as minhas cobardias, as minhas inautenticidades e as minhas autonomias (auto-nomos).
Paulo faz-se pergunta permanente e obriga-me a uma coerência maior, a uma entrega mais gratuita e a um horizonte que ultrapasse o tamanho deste mundo.

Capuchinhos deixaram Santa Justa

Mário Nunes



A Igreja de Santa Justa, no início da rua da Figueira da Foz e “plantada” a meio da colina que sobe para a rua de Aveiro, ficou sem os Freis, os designados Franciscanos Capuchinhos. A falta de vocações e a necessidade de dar apoio religioso e humano aos nossos irmãos de Timor foram as razões invocadas para a saída destes bons pastores da nossa cidade e da Diocese.
Nós, amigos de longa data destes homens de Paz e Bem, aureolados com a mística de S. Francisco e portadores de extraordinária cultura nas mais diferentes áreas do saber, recebemos, com mágoa e tristeza, a desagradável notícia da sua partida e lemos com emoção, a emotiva carta que Frei César nos enviou por mail. Frei, que a par dos Freis Américo e Banhos, mais partilharam connosco a sua sensibilidade cultural e a efectiva possibilidade para repartir o espaço sagrado em concertos de música e em visitas natalícias aos presépios da sua Igreja. Homens de Cultura acolheram alegres e conviviais os pedidos que, tantas vezes, lhe remetemos – autárquicos e anteriormente ao nosso cargo de Vereador.
Recordou-nos, nessa missiva de despedida, a coragem dos homens que abraçam a missão evangélica para servir os homens e louvar a Deus, como aceitou, resignado e respeitador, as orientações oriundas dos seus Superiores. “Nós, franciscanos, estamos sempre prontos a nova jornada. Onde precisam do nosso trabalho, no lugar do chamamento, para activar a nossa missão na Terra, é ali que se projecta a vontade do Senhor”. Paz e Bem, a sua divisa cumprida na pobreza que aceitam, afinal a sua grande riqueza envolvida na força da esperança que transportam, na alegria da vida que exteriorizam e no fervor da fé em Cristo que os acompanha. Sempre mensageiros da paz, dão o conforto e auxílio aos que necessitam da sua entrega total, desprendendo-se de tudo, ignorando os bens terrenos e declinando as palavras de agradecimento. Perseguem o exemplo de Francisco de Assis, estampando no rosto a grandeza da felicidade, porque é esse bem que levam aos tristes, desesperados, aos que não acreditam no amanhã, aos desprovidos de meios materiais e, quantas vezes, descrentes dos homens e até de Deus. Vão ao seu encontro, repartem o pão para alimentar o corpo e oferecem o pão do espírito, para suavizar os males físicos, psicológicos e espirituais que atormentam os infelizes, marginalizados, abandonados e pobres de carinho e amor.
A Igreja de Santa Justa, um património relevante na cidade, ficou sem padres franciscanos. Uma comunidade religiosa sempre aberta a receber, a dialogar e a apoiar os outros – espiritual e materialmente – partiu. Que futuro aguarda o templo? D. Albino está atento à situação para nós inesperada, que atingiu a população do Bairro de Santa Justa, os cristãos, católicos e os conimbricenses.
Acreditamos que o nosso Bispo saberá defender uma herança multissecular, um acervo de incontestado valor arquitectónico, de arte sacra e de respeitável pendor espiritual, um templo que ao longo de gerações acumulou história e valores inestimáveis, que as suas pedras e alfaias litúrgicas guardam, ciosamente, porque são pedaços da História de Coimbra e monumentos em honra de Deus. São vínculos sagrados que falam ao povo de Coimbra.
Os Franciscanos Capuchinhos deixam saudades. A carta de Frei Acácio é “enorme” na esperança e na paz. E, também, plena de gratidão à urbe do Mondego e às suas gentes. Os Capuchinhos, volvidos séculos, partem de Coimbra para continuar a missão dos seus antepassados: levam ao Mundo a fé de Cristo, a língua e a civilização portuguesas, erguendo, mais uma vez, o padrão da paz, do amor, da alegria e do Bem.

À descoberta da Sé Velha, um tesouro do nosso Património

João Evangelista R. Jorge


Encaixada no velho casario da Alta de Coimbra, com péssimos acessos e sem sinais de trânsito a indicar caminhos, a Sé Velha, “qual esposa adornada para o seu esposo”, vai cumprindo o destino de revelar aos homens que Deus mora aqui. Catedral de Coimbra desde 1180 nesta configuração de muralha medieval, cheia de símbolos religiosos que muito a valorizam, despida de ornatos convida à concentração do espírito, ao silêncio. A cidade de Coimbra e as instituições culturais e assistências que a animaram ao longo de 8 séculos tiveram aqui o seu início. Ela é de facto a Alma Mater de Coimbra.
E foi assim, que acumulou um capital de riqueza histórica incomparável até 1772, ano em que o regime ditatorial do Marquês de Pombal decretou a sua ruína.
A sua sobrevivência deve-se ao facto de ser uma igreja.
O povo de Coimbra e a sua Academia nunca deixaram de lhe chamar Sé. E a anomalia que resultou da abusiva interferência da autoridade política concretizou-se na existência de duas igrejas com o título de Sé, uma das quais sem nenhum documento da autoridade da Igreja a reconhecê-la como tal. Os livros litúrgicos só reconhecem a igreja Santa Maria de Coimbra (Sé Velha) como igreja Catedral e no discurso da Saudação do Bispo de Coimbra ao Papa João Paulo II, aquando da sua visita a Coimbra, é referida a Sé Velha como a igreja símbolo da unidade de todas as igrejas da Diocese.
A dignificação da Sé Velha não é uma questão de hegemonias fundamenta-se na teologia, na história e no direito canónico.
Em várias ocasiões o Senhor Bispo D. Albino Cleto reconheceu que a Sé Velha é a sua Sé histórica.
O poder político de Portugal pela via das suas mais altas autoridades apoia e honra as iniciativas que temos em mãos.
A Câmara Municipal marcou solenemente a sua homenagem à sé Velha, com a realização da reunião extraordinária da Assembleia Municipal, nos Claustros, no dia da cidade. A Universidade com as inúmeras colaborações dos seus Mestres e Professores em actividades culturais e com a presença do seu representante na festa litúrgica anual da Sagração da igreja.
Coimbra e as suas gentes, a sociedade civil, já começou a dar-se conta de que a Sé Velha é o tesouro patrimonial mais significativo e emblemático da cidade e que se conserva vivo e actuante.
Os próximos meses de Novembro e Dezembro estão particularmente recheados de celebrações festivas, por ser o mês de aniversário da Sagração da Igreja e do Natal e com especial referência aos 500 anos do Retábulo.
Sinal de Vida será, também, a aglomeração de gente nova que, todas as noites, converge para o Largo da Sé Velha para as suas farras nocturnas. Num ponto merecem louvor: o de demonstrar que os caminhos da Sé Velha são praticáveis e que a desculpa dos crentes para faltarem aos actos de culto por inconveniência de acesso não é verdadeira.
No entanto, o barulho em excesso toda a noite, sem respeito por quem precisa de dormir; a transformação das escadas de acesso à igreja em esplanada de comes e bebes, com as consequentes sujidades e que todos os dias obrigam a remover o lixo, vómitos e outras coisas indignas; a utilização de qualquer abrigo ou esquina para urinar, é feio, atenta contra a saúde pública e à higiene da cidade. Tais ocorrências não dignificam em nada a Sé Velha e merecem ser modificadas.

Latrocínios desenfreados

José Eduardo R. Coutinho


Partindo do primeiro texto sagrado deste trigésimo Domingo, a perícope de Ex 22, 25 determina várias reflexões bíblicas que, inseridas na Lei, como condição e proposta de Aliança, no Sinai, entre Yahweh e Israel, estabelecem regras de sadia convivência comunitária, definem critérios identificativos do verdadeiro crente no Senhor e concretizam especificidades estruturantes da salutar dimensão religiosa.
Essa prescrição foi, posteriormente, contornada pelos grandes do Povo de Deus, os que viviam de volumosos negócios e, congenitamente, possuíam a hereditariedade de Judá, o célebre filho de Jacob, autor moral e material da venda do irmão José, por vinte peças de prata, aos caravaneiros madianitas, em deslocação para terras egípcias. Vender uma pessoa livre ficara sendo crime grave, também contemplado na Lei e castigado com a pena capital (Ex 21, 16).
Na Idade Média, depois de tantos escrúpulos e problemas surgirem acerca do uso, da acumulação e dos empreendimentos efectuados com o dinheiro, com a finalidade dos lucros previstos, ele foi declarado esterco do diabo e, por isso, visto de maneira suspeita, só que, perante o largo desenvolvimento económico das cidades italianas, bem como das importantes famílias banqueiras, ligadas às potências marítimas da península itálica, teve lugar o máximo desrespeito pela norma bíblica, mas, a imortal predicação perdura inalterável.
O mundo sempre novo do Renascimento, das Descobertas, da Expansão, dos Estados Modernos, das Luzes e da vertiginosa surpresa do progresso contemporâneo acolheu-o, instalou-o, disseminou-o, venerou-o, idolatrou-o e endeusou-o, num imperceptível processo diabólico, de tal modo que, nas sucessivas escalonadas históricas, está reafirmado ser um autêntico amontoado de feses (o plural adequado ao somatório de parcela da fé nessa Besta) infernais.
Sobre tal e tão infinda montureira de nitratos excrementosos estão firmadas as sociedades modernas, com o multifacetado cortejo de tolerantes, oportunistas, simpatizantes, especialistas, burlantes e …. cientistas. Uma caterva de aldrabões de feira, piores que os psicólogos: estes, à falta de explicações aceitáveis e racionais – os Salmos ultrapassaram-nos, há milénios! – inventam teorias sectoriais; aqueles, para roubar, descaradamente, arranjam disfarces camaleónicos, enunciados como crise, inflacção, flutuações da bolsa, míngua de reservas petrolíferas, abatimentos no sistema, restrições do produto, vectores homeopáticos…
A cada momento, congeminam uma inaudita estirpe bacterio-viral, de laboratório pirata, para sacarem, com ar bem falante, de gravata continuamente a ajustar e o casaco a abotoar – notemos a significação dos gestos, consorciados à explicitude conotativa dos verbos empregues – mais uma porção financeira do bem intencionado cliente. Confiante, confiou-lhes o depósito das economias monetárias que, subtilmente, lhes vão sendo delapidadas, numa acção furtiva, continuada, como terrível peste que alastra a olhos vistos, porém, a coberto de quem sabe da marosca e nutre interesses opulentos.
Manutenção de conta, despesas várias, fabrico de cartões, gastos de papel, horas de serviço, envio de publicidade, custo dos cheques, malabarismos de mercado, utilização informática, mentiras estatísticas e outras intrujices de patifes servem de ardil, à saciedade, para iludirem a desmedida ladroeira instaurada, quando, há décadas, nada disso requeria pagamentos e, sobretudo, os depósitos estavam a salvo, dando lucros aos titulares e, muito maiores, aos próprios bancos: a moralidade a todos beneficiava.
Era assim – pretérito perfeito do indicativo e, simultaneamente, desgraçado tempo actual – deixa tudo a desejar, põe questões insolúveis e, quem poderia supô-lo, legitima o procedimento do servo que, na parábola, preferiu guardar, no lenço (a forma bancária caseira), a mina de ouro, entregando-a, íntegra, ao dono regressado (Lc 19,20-23), apesar de o mencionado senhor confiar na então honra dos bancos. Perante tão escandalosos acontecimentos, do nosso quotidiano, será que o Rabi da Galileia manteria, hoje, os mesmos termos do conhecido enunciado?
Nenhum entendido em História Medieval duvida do profundo sentido de respeito, de sigilo e de prestimosa segurança valorativa que merecia o depósito de aforros à guarda dos Templários, cujo procedimento, de princípios intocáveis, é mantido na banca suíça; segundo consta, é expressão hodierna daqueles respeitáveis guardiães, refugiados nas reentrâncias físicas das montanhas alpinas e jurássicas, ainda modelos ímpares de gestores conscienciosos, da melhor opção mundial e do mais conceituado serviço no sector financeiro, devido à origem indicada.
Todavia, o factor desonestidade, a leviana irresponsabilidade do funcionalismo novo, a ganância do lucro fácil e o jogo sujo, realizado com numerário alheio, quantas vezes obtido em resultado de persistentes privações e de repetidos sacrifícios, assumidos na laboriosa esperança de aumentar poupanças e poder amealhar algum pecúlio, já mencionado na encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, a fim de configurar uma parte fundamental da realização individual e familiar, presente e futura, dão azo à união de facto estabelecida entre bancos e economistas pantomineiros, a fazerem assados de manteiga pura, que nunca é deles, mas, dos outros.
Estes longos clamores ecoam em todos os ares, estão sentidos em todos os lugares, requerem medidas urgentes, vigorosas, eficazes e restituidoras da confiança perdida, visto faltarem práticas de solidariedade humanizante, de comunhão cristã, de verdadeiro, coerente e consequente sentido para haver um autêntico dia mundial da poupança, só justificado quando há justiça, equidade e profundo respeito pelos bens adquiridos e pelo património dos outros e de cada pessoa humana. De contrário, convém reavivar o dito apropriado a tais patifórios: matá-los é pecado; mas, enterrá-los é obra de misericórdia!