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29 de outubro de 2008

A Sagrada Escritura no Sínodo dos Bispos


Manuel Augusto Rodrigues

Decorreu em Roma o Sínodo dos bispos, que teve início a 5 de Outubro na basílica de S. Paulo "extra muros", para evidenciar que neste ano se celebram os dois mil anos do nascimento do apóstolo dos povos. O tema escolhido foi "A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja". De sublinhar a presença no Sínodo de várias personalidades de relevo, como a de um rabino e de membros de outras igrejas ou movimentos católicos, etc. que intervieram nas diversas sessões. Relativa mente ao interesse que se verifica pela Bíblia lembre-se o programa RAI (Televisão italiana) com a leitura contínua dos textos sagrados ao longo de alguns dias e a entrega ao papa de uma Bíblia poliglota que teve lugar recentemente. Mas o analfabetismo bíblico, como foi evidenciado numa das sessões do Sínodo, continua a ser uma realidade.
No discurso de abertura Bento XVI afirmou, entre várias considerações, que a influência negativa de uma certa cultura moderna levou a que países que outrora tinham grande riqueza de fé e de vocações estão perdendo a sua identidade. Os que decidiram que "Deus morreu" declaram-se a si mesmos como "deuses", julgando-se os únicos agentes do seu próprio destino, os proprietários absolutos do mundo. Mas, ao eliminar-se Deus do seu horizonte, ao declarar-se que Deus "morreu", tornam-se verdadeiramente felizes e mais livres? "Quando os homens se proclamam proprietários absolutos de si mesmos e únicos donos da criação, podem verdadeiramente construir uma sociedade na qual reinem a liberdade, a justiça e a paz?", continuou interrogando-se.
Pelo contrário, como se demonstra quotidianamente, difundem-se o poder arbitrário, os interesses egoístas, a injustiça e o abuso, a violência em todas as suas expressões. O homem encontra-se mais isolado e a sociedade mais dividida e confusa, salientou. S. Paulo aí está como exemplo de anunciador da Boa Nova. A primeira e fundamental tarefa da Igreja, acrescentou, é "alimentar-se da Palavra de Deus". E citou a célebre frase de S. Jerónimo: "Quem não conhece as Escrituras, não conhece o poder de Deus nem a sua sabedoria. Ignorar as Escrituras significa ignorar a Cristo".
Numa outra alocução de Bento XVI sobre o Sínodo, a 14 deste mês, o papa falou de interpretações que negam a presença real na história. Referiu-se à exegese moderna, ao seu valioso contributo, mas também aos riscos e aos problemas que dela podem advir. A constituição "Dei Verbum" do Vaticano II oferece duas indicações metodológicas para um adequado trabalho exegético. Confirma aquele documento a necessidade do uso do método histórico-crítico. O facto histórico é uma dimensão constitutiva da fé cristã. A história da salvação não é uma mitologia, mas uma verdadeira história e por isso há que estudá-la com os métodos da rigorosa investigação histórica.
Mas, prosseguiu Bento XVI, a história bíblica tem outra dimensão, a da acção divina. Como qualquer obra literária a Sagrada Escritura deve interpretar-se com o mesmo espírito com que foi escrita. Deve-se por conseguinte interpretar o texto tendo em atenção a unidade de toda a Bíblia, que hoje se designa por exegese canónica; deve ter-se presente a tradição viva de toda a Igreja e, finalmente, importa observar a analogia da fé.
Só quando os dois níveis metodológicos, o histórico-crítico e o teológico são tidos em consideração, se pode falar de uma exegese teológica. Alude Bento XVI aos extraordinários progressos obtidos nos últimos tempos quanto ao primeiro nível, mas observa que o mesmo não se pode dizer do outro nível; muitas vezes o nível representado pelos referidos elementos teológicos está ausente. Desde Leão XIII, da criação da École Biblique de Jerusalém e do Pontifício Instituto Bíblico, passando por tantas realizações e iniciativas levadas a cabo ao longo do séc. XX para se conhecer melhor e interpretar com mais rigor os livros sagrados percorreu-se um longo caminho.
Mas, diz o papa, a falta de elementos teológicos na exegese, traz consequências graves: a Bíblia é considerada apenas como um texto do passado, a exegese não é realmente teológica, tornando-se pura historiografia, história da literatura; outra consequência ainda mais grave é que quando desaparece a hermenêutica da fé indicada na "Dei Verbum" surge outro tipo de hermenêutica, uma hermenêutica secularizada, positivista, que leva a concluir que o Divino não aparece na história humana. Cria-se assim um fosso profundo entre exegese científica e "lectio divina". E daqui resulta uma forma de perplexidade na preparação das homilias. Quando a exegese não é teologia, a Sagrada Escritura não pode ser a alma da teologia e, vice-versa, quando a teologia não é essencialmente interpretação da Sagrada Escritura na Igreja, esta teologia não tem qualquer fundamento.
Por isso, acrescenta o papa, para a vida e para a missão da Igreja, para o futuro da fé, é absolutamente necessário superar este dualismo entre exegese e teologia. A teologia bíblica e a teologia sistemática são duas dimensões de uma única realidade, a teologia. De acordo com a "Dei Verbum", deve o Sínodo não esquecer este ponto. Será pois necessário alargar a formação dos futuros exegetas para abrir realmente os tesouros da Sagrada Escritura ao mundo e a todos nós.
Noutro trabalho a publicar brevemente abordaremos com maior desenvolvimento o tema deste Sínodo dedicado à Palavra de Deus.

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