Correio de Coimbra

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2 de março de 2007

D. Manuel Clemente foi nomeado bispo da diocese do Porto

- Entrada solene no dia 25 de Março


D. Manuel Clemente foi nomeado bispo do Porto, sucedendo D. Armindo Lopes Coelho, que tinha já apresentado a sua resignação por ter atingido o limite de idade canónico para o exercício de funções. "Como «programa», levo só um propósito total e absoluto: conhecer, amar e servir a diocese do Porto", anunciou D. Manuel Clemente, numa mensagem que foi dirigida à diocese e na qual saudou, também, "crentes de outras confissões e credos, ciente de que a fé em Deus é o melhor alicerce e incentivo da fraternidade e solidariedade".
A cerimónia de tomada de posse – a entrada solene na diocese – está já agendada para o dia 25 de Março na sé catedral do Porto.
Licenciado em História e Teologia e doutorado em Teologia Histórica, D. Manuel Clemente, 58 anos, é professor de História da Igreja na Universidade Católica Portuguesa e presidente da Comissão Episcopal de Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais. Actualmente era bispo auxiliar de Lisboa. Numa entrevista à Agência Ecclesia, confrontando com a história da Igreja no Porto e a marca deixada por António Ferreira Gomes, "ligado a muitas denúncias sociais", o novo bispo afirmou que "o espírito é o mesmo". "O espírito que trabalhou nessa e noutras grandes figuras da diocese do Porto é o mesmo espírito que trabalhará em mim. Depois, o que as circunstâncias produzirem logo se verá", disse.
Foi com "surpresa" que D. Manuel Clemente confessou ter recebido a sua nomeação, revelando que terá como prioridade "conhecer a diocese", uma realidade que afirmou desconhecer. "Conhecer cada uma das sua paróquias, cada um dos seus movimentos, cada uma das suas associações e todas as entidades que trabalham no sentido do bem comum das populações", adiantou.

Até 4 de Março: Colégio de S. Teotónio recebe escolas de 16 países europeus


"No mosaico europeu" é o lema para este ano lectivo no Colégio de São Teotónio. Nesse sentido, até ao dia 4 de Março, o colégio é o ponto de encontro de 16 escolas de países da UE.
No âmbito da realização da Semana Europeia, o Colégio de São Teotónio está a receber, até ao dia 4 de Março, alunos e professores (num total de 75 pessoas) de 16 escolas da União Europeia.
Os visitantes chegaram no passado Domingo a Coimbra, mas foi na Segunda-feira que decorreu o primeiro encontro com os participantes, com uma visita ao colégio. Seguiu-se, às 14H00, a abertura oficial, com a presença do secretário de Estado da Educação, Valter Lemos. Às 15H30, um passeio pela cidade serviu para mostrar o que de belo tem Coimbra para oferecer aos estrangeiros. À noite, pelas 19 horas, decorreu um jantar-buffet internacional.
Pretende-se, durante esta semana, permitir aos alunos o contacto com experiências educativas diferentes, do Norte e do Sul da Europa, dando-lhes, assim, a oportunidade de participar numa "experiência cultural e linguística quase única".
De acordo com uma nota enviada à nossa redacção, assinada pelo Padre Dr. Manuel Carvalheiro, director pedagógico do Colégio de São Teotónio, "urge intensificar a partilha de saberes, de culturas, de valores. Urge estreitar laços relacionais, ultrapassando barreiras linguísticas e atender a vivências tão diferentes e nem por isso menos interessantes".
Os projectos de turma que estão a ser desenvolvidos têm sempre um aspecto europeu em relevância. Recorde-se que, desde o ano lectivo passado, sob o lema "No mosaico europeu", o colégio procurou conhecer melhor a Europa sob os mais variados pontos de vista, numa perspectiva de reforço da cidadania. "Procurámos conhecer melhor os outros, os seus hábitos, línguas, tradições, potencialidades", salienta Manuel Carvalheiro. Chegou agora a oportunidade de contactar bem de perto com essa realidade. Este projecto envolve toda a comunidade, desde pais, alunos e professores, pois a organização da Semana Europeia exige o alojamento dos alunos, além das actividades previstas para desenvolver durante esta semana, como visitas à cidade e à região.
Participam nesta semana europeia escolas vinda da Alemanha, Áustria, Bélgica, Eslovénia, Finlândia, Grécia, Hungria, Itália, Lituânia, Luxemburgo, País Basco, Polónia, Reino Unido, República Checa e da Suécia.

Director do ISET em entrevista ao “Correio”


O tema da mulher na Igreja precisa de um sério debate

O ISET (Instituto Superior de Estudos Teológicos) de Coimbra organiza, nos dias 23 e 24 de
Março, no Auditório do Instituto
Português da Juventude, as suas Jornadas de Teologia. A este
propósito, o "Correio" quis ouvir o Doutor A. Jesus Ramos, director do Instituto, que, nessa qualidade, nos afirmou que "a temática da relação Mulher/Igreja precisa, como muitas outras, de ser debatida e
reflectida. O padre António Jesus Ramos foi ordenado em 1975,
tendo obtido, em 1979, o grau de licenciatura na faculdade de
história eclesiástica na
Universidade Gregoriana.
Doutorou-se, mais tarde, na mesma universidade, com uma tese sobre o bispo de Coimbra, D. Manuel Correia de Bastos Pina. A partir do ano lectivo de 1980/81 tem leccionado no ISET as cadeiras de História da Igreja, História da Igreja em Portugal, Patrologia, Metodologia e Comunicação Social. Em 1996, foi convidado para integrar o corpo docente do Instituto Superior de Teologia de Viseu, filiado, tal como o ISET de Coimbra, na faculdade de teologia da Universidade Católica Portuguesa. Actualmente, é ainda pároco de S. Bartolomeu e director do "Correio de Coimbra".



Que pretende o ISET, que ao longo de todo o ano se dedica ao ensino das disciplinas teológicas, com a organização de umas "Jornadas de Teologia"? Não se trata de repetir, em dois dias, o que se ministra no tempo lectivo?
Claro que não! Seria insensatez pretender, em meia dúzia de lições, transmitir, mesmo que resumidamente, o que se ensina ao longo de seis anos de um curso teológico. Um curso de teologia abrange muitas disciplinas, desde o estudo da Sagrada Escritura, ao ensino dos Padres da Igreja, passando pela reflexão sobre os dogmas da fé cristã, da estrutura da Igreja e da doutrina da salvação, sem esquecer a sagrada liturgia, a moral fundamental, o direito canónico, a história da Igreja, e tantos outros aspectos que nos permitem entender melhor a relação de Deus com o homem através de Jesus Cristo, o Filho de Deus vivo. Sendo assim (e eu estou apenas a resumir um programa muito mais abrangente), não se trata de repetir, mesmo que só este ou aquele aspecto do curso teológico.




Então, o que se pretende?
No fundo, o nosso objectivo é pegar num tema, de entre os muitos de que é composto o nosso ensino e o nosso estudo, e proporcionar, primeiro aos nossos alunos, e depois a todos os que estão despertos para estas problemáticas, uma reflexão mais aturada sobre esse ponto doutrinal, moral, teológico ou de sociologia religiosa. Nas jornadas não vamos fazer um curso, nem sequer um mini-curso de teologia, mas apenas abordar um pequeno aspecto de uma temática que nos diga respeito e que nós vejamos que precisa de ser reflectida e esclarecida. É o caso do tema deste ano.


Segundo o vosso programa, o tema a debater é "A mulher e a Igreja: perspectivas para o século XXI". Alguma razão especial?
Como lhe disse, é nossa preocupação abordar uma temática teológica, mas que tenha a ver com as preocupações da Igreja e da sociedade nos nossos dias. Os teólogos não devem ser apenas meros repetidores de fórmulas e de cânones, mas é seu dever estarem atentos aos problemas do mundo, das mulheres e dos homens seus contemporâneos. Hoje, podemos ensinar a dogmática trinitária como os padres do século IV, depois de Niceia. Mas a nossa abordagem sobre a consagração religiosa no mundo, sobre a disciplina matrimonial, ou sobre o próprio entendimento do homem é forçosamente diferente. Cada tempo tem a sua linguagem, tem a sua cultura, tem a sua forma de entender o mundo e as próprias relações sociais.
Não está a responder à minha pergunta. Gostaria de saber se há alguma razão especial para, desta feita, se abordar o tema do binómio Mulher/Igreja.
Eu estava a tentar explicar, embora entenda que pretenda uma resposta mais directa. De qualquer modo, sem me desviar do seu objectivo, gostava de recordar que, ao longo de mais de 20 anos (as nossas jornadas começaram em 1986) o nosso objectivo tem sido sempre o de fazer uma reflexão sobre algum aspecto pertinente de actualidade eclesial e social. Dou-lhe apenas três ou quatro exemplos, lembrando jornadas em que participei activamente: em 1987, no centenário do nascimento do Padre Américo, o nosso estudo recaiu sobre "A Igreja e a opção pelos pobres"; em 1990, quando se começava a falar da nova evangelização, a nossa abordagem teve como tema "A evangelização em tempo de mudança"; no ano seguinte, outro tema muito actual: "O cristão e o desafio ecológico". Mais recentemente, tivemos a preocupação de abordar "o divórcio e a unidade da família" (1994); "Religião e cidadania" (2001); ou "Cristianismo e construção de Europa" (2004). Como vê, tudo temas actuais.
O ano passado penso que o tema andou à volta da vida humana.
Precisamente. Como sabíamos que, mais mês menos mês, o tema da vida humana, inviolável a partir do primeiro até ao último momento, iria entrar em debate público, como agora aconteceu, nós procurámos dar, aos nossos alunos e a todos os participantes das jornadas, chaves de leitura sobre este assunto que, como sabe, é pluridisciplinar. Por isso, foi feita uma abordagem bíblica, uma abordagem filosófica, uma abordagem científica, uma abordagem social e, logicamente, uma abordagem teológica.




É na sequência desse tema que vem este da relação Mulher/Igreja?
Eu não diria que se trata de uma sequência. Todos os anos o Conselho Científico (formado por professores das diversas disciplinas) se reúne para, entre outros assuntos, decidir sobre o tema das jornadas do ano seguinte. De entre as várias hipóteses aventadas, pareceu-nos que estava na hora de fazer uma reflexão sobre a Mulher e a Igreja, abrindo perspectivas para uma clarificação teológica e doutrinal sobre este assunto que está na ordem do dia.


Vão abordar o tema da possível ordenação sacerdotal das mulheres?
Eu já esperava essa pergunta.


Pode não responder…
Eu costumo dizer aos meus alunos que todas as perguntas bem intencionadas merecem a consequente resposta. Depois, não é pelo facto de se tratar de um tema difícil que nos vamos escudar atrás de meias palavras ou de pequenas evasivas. No entanto, neste caso, não posso adiantar-lhe muito. Posso dizer-lhe que o tema do acesso de mulheres ao ministério ordenado tem sido abordado, nos últimos anos, em várias instâncias, nomeadamente eclesiásticas. Por isso, é possível que algum dos professores convidados toque nesse aspecto, quer emitindo a sua opinião, quer comentando o que se tem escrito sobre o assunto. Mas não está prevista nenhuma lição específica sobre essa matéria.


Então, que temas vão ser abordados?
Vamos começar, como é natural em estudos de teologia, por uma abordagem bíblica, a cargo do Dr. José Carlos Carvalho, da Universidade Católica (Porto), que está a fazer a sua tese de Doutoramento sobre a mulher na Sagrada Escritura. Depois, iremos percorrer a história da Igreja, com a Doutora Filomena Andrade, do Centro de Estudos de História Religiosa da UC, que está também a preparar doutoramento sobre a mulher consagrada na Idade Média. Seguem-se as abordagens sob o ponto de vista da família e sociedade e da comunicação social, o primeiro a cargo da Doutora Maria do Rosário Carneiro, deputada e mãe de família, e o segundo da Dr.ª. Laurinda Alves, grande conhecedora da relação entre o fenómeno religioso e a comunicação. Depois, teremos uma lição da irmã Dr.ª Laurinda Faria, Hospitaleira, sobre a actualidade da consagração da mulher ao serviço da evangelização. E, finalmente, o Doutor D. Carlos Azevedo vai abrir-nos perspectivas para o entendimento da relação Mulher/Igreja neste início do século XXI.


Pelos vistos, quase todas as lições estão a cargo de mulheres. É por acaso?
Não! Houve da nossa parte, da direcção do Instituto, a preocupação de convidar mulheres, até porque reconhecemos que, em muitas matérias, elas estão muitos pontos acima dos seus colegas no ensino, na profissão ou em outras actividades humanas e sociais.
Ainda queria questioná-lo sobre outros aspectos da vida do Instituto de Teologia, sobre a adesão ao processo de Bolonha, sobre o futuro do ensino teológico em Portugal…
Estou sempre ao dispor. Mas talvez lá mais para diante, quando vier a talho de foice. Hoje, deixe-me apenas terminar recordando que as nossas jornadas de teologia, a 23 e 24 de Março, se realizam no auditório do Instituto Português da Juventude (abertas, por isso, a toda a sociedade, a começar pelos cristãos que querem aprofundar este aspecto do seu conhecimento). As inscrições podem ser feitas na secretaria do ISET, no Seminário de Coimbra.

Tardes de formação familiar


O Secretariado Diocesano da Pastoral Familiar (SDPF) vai promover mais uma "Tarde de formação familiar" no próximo dia 17 de Março, para as comunidades da Região Pastoral Centro. Será no Centro Pastoral Rainha Santa Isabel (anexo ao Convento de Santa Clara-a-Nova, em Coimbra) das 14:30 às 18 horas, com reflexão sobre o tema "Família, espaço de comunhão e fonte de crescimento". Haverá oportunidade para ouvir uma breve exposição, por um elemento do SDPF, trabalhar em grupo e projectar as ideias na(s) realidade(s) da Região Pastoral.
Todas as paróquias da Região se deveriam fazer representar por casais das Equipas Paroquiais da Pastoral Familiar, ou por casais "promissores" quando não existir pastoral familiar organizada.

Grupo Gen Verde dos Focolares actua em Coimbra


Genverde, um dos conjuntos internacionais do Movimento dos Focolares, volta agora a Portugal, em tournée, com um musical que exprime os valores da justiça, da paz, da solidariedade, da unidade e da fraternidade. O espectáculo em Coimbra está integrado na IX Semana Cultural da Universidade e acontecerá no dia 7 de Março (4ª feira), pelas 21h15m, no Teatro Académico Gil Vicente.
Este grupo internacional de teatro, música e dança apresenta-se, este ano, com um espectáculo inédito. "O manto do mundo" relata a rápida expansão de um ideal que se tornou movimento: o Movimento dos Focolares. O espectáculo quer mostrar que "o Amor é o único capaz de abrir caminho para o diálogo com todos, para valorizar aquilo que une as nações, para transformar todos os homens num só povo de mil cores, envolto pelo manto dos valores, do diálogo, da justiça, da solidariedade e da fraternidade".
O grupo Gen Verde nasceu em 1996 e por ele passaram 129 jovens de 29 nações para dar corpo a uma mesma vontade: "contribuir para a construção de um mundo mais unido" através da arte, em particular da música, da dança e do teatro. Actualmente, as 24 artistas que o compõem, entre as quais a portuguesa Sílvia Reis, vêm de 14 países. A variedade de linguagens expressivas e de estilos é uma forte característica do trabalho do grupo. A experiência colectiva, de vida e de trabalho criativo, inspirado na espiritualidade do Movimento dos Focolares, é apresentada como um elemento base na actividade do Gen Verde.
Os bilhetes para o espectáculo, com o custo de 18 euros, poderão ser adquiridos no Teatro Gil Vicente e na FNAC.

Ícone da amizade de Taizé em Coimbra

O ícone da amizade, entregue pelo reitor da comunidade de Taizé, irmão Alois, aos jovens europeus, depois do grande encontro de Zagreb, tem percorrido o nosso país e estará em Coimbra, de 1 a 19 de Março.
Com origem no Egipto, no século VI, o ícone foi copiado e distribuído por grupos de países diferentes, no Encontro Europeu, que aconteceu no final do ano passado. Este símbolo da amizade e fraternidade em Cristo estará presente em "pequenas peregrinações de confiança" em lugares onde os jovens se reunirem em seu torno. Nas palavras da comunidade ecuménica em Portugal, levando o ícone de uma paróquia à outra "é possível criar ou aprofundar contactos, partilhar experiências, rezar em conjunto, vivendo assim, de forma muito simples a atitude interior de um peregrino, que se põe a caminho para ir ao encontro dos outros e ao encontro de Deus".
Em Coimbra, vários grupos, paróquias e comunidades vão receber este símbolo, que será acolhido, na diocese, pelo Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil, no dia 1 de Março, pelas 19,30 horas, no Instituto Justiça e Paz. O ícone da amizade estará, depois, presente em Mira, pela mão do Grupo de Jovens de Portomar (dia 2), no Encontro Vocacional da Diocese de Coimbra (dia 3, na Igreja de S. José), nas eucaristias da paróquia de S. José (dia 4), na residência da Comunidade das Irmãs Servidoras do Evangelho (dia 5), na oração semanal da Pastoral Universitária (dia 6), na oração mensal com cânticos de Taizé, em S. José (dia 7), na capela da residência dos Missionários Combonianos (dia 8), na Comunidade de Santa Justa, Capuchinhos, (dia 9), na capela do Monte Formoso (dia 10), em Cernache, na residência do Pré seminário (dia 15), na paróquia de Mortágua (dia 17) e em Santa Comba Dão, diocese de Viseu, num encontro preparado pelo Grupo de Jovens Esperança (dia 18).
O ícone regressa a Lisboa no dia 19 de Março, sendo ainda possível aos grupos e comunidades que pretenderem recebê-lo, reservar um dia para participar de forma activa nesta peregrinação. Para mais informações poderá ser utilizado o contacto de e-mail ejcoimbra@sapo.pr (grupo Amigos de Taizé) ou info@sdpjcoimbra.net ( Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil).

TESTEMUNHO DE UM PADRE!



Carlos Godinho*
Ao referirmo-nos ao Senhor Padre Abílio Simões, vem-nos à memória, de imediato, o seu modo de ser directo, frontal, mas igualmente afável e fraterno. Foi no contacto com este modo de ser que construí, com o decorrer dos tempos, uma sólida relação de amizade e de admiração. Relação que não evidencio apenas agora, após a sua partida, mas que muitas vezes referi, quando ainda estava no meio de nós. Na verdade, cada uma destas características de personalidade era qualidade, na medida em que este colega não se fechava em si, recusando qualquer forma de diálogo. Quantas vezes lhe ouvi a expressão: «posso estar enganado… mas…», concluindo com a afirmação das suas convicções e opiniões, que defendia quando convencido delas. Esta afirmação, contudo, não recusava outros modos de pensar e de interpretar os motivos do diálogo, capaz mesmo de ceder, se entendesse que outras opções se revelariam mais válidas. Foi assim, particularmente, a nossa relação em termos de visão pastoral neste Arciprestado da Mealhada.
A sua frontalidade permitiu-me saber sempre o que sentia e pensava, não dando azo a impressões contraditórias e sobretudo a ressentimentos estéreis. Assim, a sinceridade constituía-se como cimento de uma verdadeira relação de amizade e de correcta colaboração pastoral. A sua frontalidade é, para mim, um requisito que guardo como uma das suas grandes qualidades.
Mas, para quem teve o privilégio de contactar com este homem e este padre, as suas maiores qualidades eram a afabilidade e a sua simplicidade. Senti-o sempre, desde a primeira hora. Não sei se por ser o padre mais novo do Arciprestado; se por ser quase conterrâneo seu, o que nunca foi motivo de grande conversa entre nós; se pelas nossas maneiras de ser… Certo é que sempre tive no Senhor Padre Abílio um bom amigo, um esteio de amizade, que hoje sinto faltar-me, mesmo mais que as suas mãos para o serviço pastoral, que tanto delas necessita. O seu modo de tratamento para comigo era muitas vezes um misto de brincadeira e de amizade, não deixando de fazer perceber subliminarmente o apreço pelo esforço que eu fazia no sentido de prosseguir estudos e de me valorizar ao nível dos conhecimentos. Afinal, este padre também era professor; era igualmente um homem atento à actualidade, que não lhe escapava e tantas vezes motivava as reflexões que connosco partilhou, em artigos de opinião; era um homem preocupado com a sua formação contínua, de que são exemplo as pós-graduações que frequentou em bioética e agora – nem eu sabia! – em direitos humanos. Sabia da importância da formação contínua e da atenção ao quotidiano.
A sua afabilidade manifestava-se, igualmente, na sua inteira disponibilidade para colaborar com os colegas de Arciprestado. Quantas vezes diante de uma necessidade de colaboração pastoral lhe ouvi: «Vai descansado!...», quando por qualquer razão tinha de me ausentar das paróquias; ou mesmo lhe ouvia: «Porque não disseste?...», quando eu próprio julgava não ser oportuno exigir-lhe uma disponibilidade que poderia revelar-se desnecessária, por me permitir conjugar os vários compromissos de agenda, ou recorria a outro colega para o não sobrecarregar a ele. Mas tudo isto era feito numa imensa simplicidade e disponibilidade que se quedava no decorrer dos dias. A sua capacidade de sacrifício para responder a urgências de serviço pastoral evidenciava ainda esta mesma disponibilidade. Fazia-o, particularmente, quando um colega estava impedido por razões de saúde de corresponder a compromissos assumidos.
A sua alegria e atenção às pessoas são qualidades que sempre havemos de reconhecer. A sua «teimosia» evidenciava-se aqui, quando tinha de lutar pelos direitos de alguém, a quem defendia com maior determinação do que aquela que emprestava à afirmação dos seus.
Esta alegria era visível numa outra capacidade: a de rir de si próprio. Quando conversávamos sobre um dos seus comentários escritos e procurávamos descodificar a sua linguagem, a sua ironia sobrevinha da forma mais pura e sabia tirar um proveitoso partido desse seu modo de ser. Várias foram as conversas em torno deste modo de escrever e de olhar a realidade. Sempre com a mesma bonomia.
Se o papel é incapaz de acolher o que um coração sente, devo dizer que esta foi uma boa experiência de companhia humana e no ministério. A sua falta é grande! Fica-nos a «recordação», que, como afirmei no contexto da celebração de missa de sétimo dia, é muito mais que a memória: é a capacidade de deixar vir de novo ao coração aquilo que guardamos como o melhor de alguém.
Este é o testemunho de um padre! Poderia ser o meu, relativamente ao Senhor Padre Abílio. Mas não! É sim o seu! O testemunho que guardo, com saudade, de alguém que soube ser um «irmão», no recurso a essa expressão que ele mesmo usava no trato com cada pessoa que com ele se cruzava.

*(Pároco de Luso e Casal Comba)

Mensagem do Bispo de Coimbra para a Quaresma

Renúncia quaresmal para as instituições que acolhem jovens mães em dificuldade



Caros Diocesanos de Coimbra,



Em nota pastoral recentemente aprovada por todos os bispos, afirma-se que "uma acentuada mutação cultural" está a marcar a vida dos portugueses e os seus costumes. Esta mudança de valores, de interesses e de comportamentos resulta de várias causas, entre elas o desinteresse em se "interrogar sobre o sentido da vida e as questões primordiais do ser humano", bem como "o individualismo no uso da liberdade".
Os ventos da superficialidade e do materialismo individualista também nos influenciam a nós, cristãos, levando-nos inconscientemente para uma vida que, por vezes de cristão, só tem a casca, as tradições, os hábitos rotineiros…
"Eis agora o tempo favorável", assim reza a liturgia do início da Quaresma, o tempo favorável para mudarmos, para procurarmos o essencial da nossa vida cristã, o seu miolo, a sua verdade fundamental. Preparar e viver a Páscoa é o caminho para voltarmos ao essencial. Porque o essencial do cristianismo é sermos unidos a Jesus Cristo, morrendo com Ele para os nossos pecados e ressuscitado diariamente com Ele para uma vida de fé e de amor generoso.
O Santo Padre diz-nos isto mesmo na sua mensagem para a presente Quaresma. Ser cristão é sentir-se amado por Deus, de tal modo que esse amor divino nos leve a mudar radicalmente a nossa vida para lhe correspondermos.
Por isso, a primeira conversão que precisamos de fazer é a de sermos mais fiéis à oração. Cristão que não reza nunca atingirá o miolo da sua fé. O Papa convida-nos a que, nesta Quaresma, a nossa oração seja predominantemente contemplar o crucifixo e assim nos deixarmos tomar pela paixão de amor que Deus nos tem.
E acrescenta: "A resposta que o Senhor deseja ardentemente de nós é antes de tudo que acolhamos o seu amor e nos deixemos atrair por Ele. Mas aceitar o seu amor não é suficiente. È preciso corresponder a este amor e comprometer-se depois a transmiti-lo aos outros."
Que estas palavras do Santo Padre nos ajudem, a todos os cristãos da Diocese de Coimbra, a vivermos o caminho de tal modo que ele nos leve a sermos crentes tomados pelo essencial da nossa fé: o amor. Na oração diante do crucifixo beberemos esse amor e aprofundaremos o real "sentido da vida e as questões primordiais do ser humano"; no cuidado em amar o próximo, corresponderemos ao que o Senhor nos pede, corrigindo os ventos do "individualismo no uso da liberdade".
Como gesto de amor aos irmãos, gesto que nos estimule e nos una, proponho aos cristãos da Diocese de Coimbra que ao longo da Quaresma traduzam em oferta de dinheiro as suas renúncias e penitências, oferta que enviaremos para casas e instituições que acolhem e ajudam mães em dificuldades por causa da sua maternidade.
Que estes caminhos de Quaresma conscientemente vivida nos conduzam a uma comunidade de cristãos que, na nova cultura para onde a mudança nos leva, sejam de verdade "sal da terra" e "luz do mundo".


21 de Fevereiro de 2007


+ Dom Albino Mamede Cleto