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29 de outubro de 2008

Uma pergunta que me incomoda

Nuno Santos


Um homem. Uma conversão. Algumas cartas. Muitos quilómetros.
Apetece-me começar pelo fim. Começar pelos cerca de 20 000 quilómetros percorridos num tempo e num contexto em que as deslocações não tinham a facilidade e a comodidade dos nossos tempos. Viagens longas e arriscadas…
As palavras das suas cartas trazem vida dentro. São palavras que rompem as fronteiras religiosas e étnicas (do mundo judaico) para se tornarem universais. Uma universalidade que tem força suficiente para se desprender do tempo e cativar homens e mulheres.
Esta é uma história com rosto. Tem um nome. Falo de Paulo. (Os exegetas falam em dois nomes Paulo e Saul – sem acento segundo as regras da gramática).
Falo de um homem que leva Deus dentro (…é Cristo que vive em mim - Gl. 3, 20a). Falo do entusiasmo próprio de quem faz do Evangelho a sua única lei. Assim se percebem as palavras: «Fiz-me tudo para todos, para salvar alguns a qualquer custo» (1 Cor. 9, 22b).
Precisamos de mais gente assim, capaz de levar Cristo às grandes cidades da vida que somos (neste mundo tão globalizado). Precisamos de homens e mulheres que no seu tempo e no seu espaço inscrevam no coração da humanidade a esperança, a alegria e o sentido.
Precisamos de trazer Cristo para a rua. Precisamos de deixar as nossas ‘sinagogas’ e ‘púlpitos’ e ocupar o nosso lugar aí onde tudo acontece e a vida se estabelece como encruzilhada – a rua (que nos habita e nos constitui).
Dizia Tolentino Mendonça, recentemente, que «As grandes horas da Igreja são horas paulinas». Tempos de busca, de procura, de viagem, de prisão, de tensão e de recomeço permanente.
Este é o Ano Paulino, dois mil anos depois do seu nascimento (as perspectivas exegética apontam o intervalo entre 5 e 10 depois do ano zero, como data provável do seu nascimento). Este ano é uma oportunidade fantástica para recomeçarmos, para rasgarmos novos horizontes e estabelecermos novos paradigmas de pertença a uma comunidade (que tem Cristo como centro).
Mas cuidado, porque não podemos ‘adocicar’ Paulo. Não nos devemos ‘entreter’ a catalogar ou conotar alguém que é maior do que ele mesmo. Essa arte que tanto jeito tem dado a uma espécie de estética cristã pseudo-intelectual, não nos serve.
Paulo é Paulo.
Nesta perspectiva, Paulo impõe-se fundamentalmente como uma pergunta e uma pergunta que me incomoda. Incomoda o meu comodismo, as minhas desculpas, as minhas desistências, as minhas cobardias, as minhas inautenticidades e as minhas autonomias (auto-nomos).
Paulo faz-se pergunta permanente e obriga-me a uma coerência maior, a uma entrega mais gratuita e a um horizonte que ultrapasse o tamanho deste mundo.

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