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28 de agosto de 2008

Um rasto de luz



D. António Francisco dos Santos



Um sereno e brilhante rasto de luz!
É este o sentimento que espontaneamente me aflora ao pensamento, entre a saudade e a gratidão, para descrever o tempo e a vida do senhor D. Manuel de Almeida Trindade. De 1918 a 2008. Na travessia de um século, quase por inteiro, e no limiar de um novo milénio, marcado pela esperança.
Nada do século XX lhe foi indiferente. Nada lhe foi estranho. A Igreja de Portugal não era o que hoje felizmente é sem a sua lucidez, ponderação e coragem; sem a sua bondade, inteligência e determinação; sem a sua fé, testemunho e acção.
A vida, aconchegada nas muitas qualidades que em todo o lado o distinguiram, fê-lo iniciar humanamente demasiado cedo para o habitual e para o comum todas as missões a que a Igreja o chamou: sereno e sem vanglória é, com apenas 16 anos, aluno brilhante da prestigiada e exigente Universidade Gregoriana, em Roma; jovem padre, é convidado a assumir a delicada e complexa missão de reitor de um respeitado Seminário Maior; apenas bispo eleito faz a singular e marcante experiência do Concílio; regressado da primeira sessão conciliar vê-se de imediato à frente de uma jovem diocese, ainda não completamente refeita da morte súbita e prematura do seu segundo bispo.
D. Manuel, pastor desejado de uma Igreja a viver o alvoroço da juventude e o encanto do Concílio, ensinou-nos com o seu modo inconfundível de ser que só esta brisa conciliar, serena e renovadora, ao jeito do ar fresco, saudável e fecundo da manhã, traria a resposta necessária aos desafios pastorais da evangelização que diariamente surgiam no coração de uma diocese recém-restaurada.
D. Manuel era um irmão afável e acolhedor, particularmente próximo dos sacerdotes e dos seminaristas. Um irmão sem fronteiras.
Humano e nobre em tudo, nunca esqueceu que era filho do povo simples, honesto, laborioso e crente. Desse povo que durante o dia ganha o pão com o suor do rosto e à noite agradece a Deus o pão que reparte à mesa. Com desvelo e ternura fala e escreve sobre a sua família. Com enlevo e saudade evoca o seu berço em Monsanto da Beira e traça-nos em coloridas pinceladas de afecto familiar as razões que decidiram o regresso às amadas terras bairradinas.
É esta telúrica empatia do semeador e esta bênção sagrada da família que nenhum de nós jamais esquece, que nos fazem bem, nos equilibram e nos rasgam horizontes de missão à maneira das árvores frondosas cujas raízes vão longe buscar a seiva que as alimenta e o húmus sólido que as fortalece.
Talvez este gosto pelas raízes, ainda maior para quem tão cedo, hoje diríamos demasiado cedo, se desapegou de Coimbra para ir ao encontro de Roma, lhe tenha acicatado mais o sentido da lucidez, do necessário equilíbrio, da dimensão universal, da consciência católica e do espírito missionário que um servidor da Igreja deve ter.
Sempre que a Igreja o chamou a uma missão ou a um serviço, D. Manuel esteve presente: com a espontânea apreensão de um jovem seminarista a caminho de Roma em momentos difíceis da vida da Europa; com a alegria da esperança e da fidelidade de quem, com apenas vinte e dois anos, é ordenado sacerdote; com a ilimitada generosidade, a exigir o total e permanente abandono nas mãos de Deus, de quem diz sim à eleição episcopal; com a prudente serenidade de quem aceita o serviço maior na Igreja de Portugal, que os seus irmãos bispos renovadamente lhe pedem.

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