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17 de março de 2009

Faleceu o Cónego Dr. António Brito Cardoso


"Nele a delicadeza era irmã gémea da simplicidade" - referiu o Bispo D. Albino Cleto

"A vida do Cónego António Brito Cardoso foi um contínuo serviço à Igreja na Diocese de Coimbra" - afirmou D. Albino Cleto nas exéquias celebradas na Catedral de Coimbra, antes do funeral daquele ilustre sacerdote, no passado dia 16. O Bispo diocesano referiu, de modo particular, o serviço prestado no Seminário, como membro da equipa educadora e sobretudo como professor. "Sempre com desprendimento e humildade, que nele a delicadeza era irmã gémea da simplicidade". Recordou ainda os muitos trabalhos que escreveu e que são "leitura muito útil para a história da nossa diocese".
O cónego António Brito Cardoso faleceu na madrugada de 14 de Março nos Hospitais da Universidade, para onde fora transportado de urgência. Na tarde de sábado, o seu corpo foi colocado em câmara ardente na igreja do Seminário, por onde passaram muitos dos seus antigos alunos e amigos. Os seminaristas cantaram a oração de Vésperas.
Na segunda-feira, dia 14, o féretro foi transferido para a catedral, de que o defunho foi cónego titular, ali sendo concelebrada a Missa Exequial, sobre a presidência de D. Albino Cleto, ladeado por D. Eurico Dias Nogueira, arcebispo emérito de Braga, por D. João Alves, bispo emérito de Coimbra pela quase totalidade do Cabido e por cerca de trinta sacerdotes, muitos deles antigos alunos do Dr. Brito Cardoso.
Terminada a Eucaristia, o cortejo fúnebre dirigiu-se para a aldeia de Esteiro, freguesia de Janeiro de Baixo onde, depois da celebração da Missa de corpo presente, o seu corpo foi sepultado em campa da família.

Um padre de grande cultura
O cónego António Brito Cardoso nasceu em 1913, na pequena aldeia de Castanheira da Serra, freguesia de Fajão. Como ele próprio nos relatou, por várias vezes, poucos anos depois, por razões familiares, os seus pais deslocaram-se para o Esteiro, na freguesia de Janeiro de Baixo, onde cresceu e frequentou a escola móvel, tendo concluído o ensino primário na escola oficial da vizinha freguesia de Janeiro de Cima.
Em Outubro de 1927, orientado pelo pároco José da Natividade Serra, entrou no Seminário de Coimbra, onde fez os estudos preparatórios para o curso de Teologia. Dadas as suas capacidades intelectuais e o seu carácter bondoso, em 1934, D. Manuel Luís Coelho da Silva enviou-o, juntamente com outros dois seminaristas (Urbano Duarte e Manuel de Almeida Trindade), para frequentar a faculdade de Teologia da Universidade Gregoriana em Roma, onde se licenciou em Julho de 1938. Foi em Roma e nesse mesmo ano que foi ordenado sacerdote.
Regressado a Coimbra, ainda nesse mesmo ano de 1978 iniciou a sua carreira de professor no Seminário (e depois no ISET), leccionando as cadeiras de Grego Clássico, Hebraico, Grego Bíblico e Sagrada Escritura (Exegese). Durante vários anos foi prefeito de estudos dos seminaristas.
Em 1948, já nomeado Cónego da Catedral, entrou nos serviços administrativos da Cúria, tendo desempenhado sucessivamente as funções de Secretário, Tesoureiro e Arquivista.
Como ele próprio escreveu, foi "aproveitando o tempo que as diversas ocupações lhe deixaram livre, e sobretudo durante as férias", que se dedicou à investigação, vindo a publicar vários manuais que serviram não apenas os alunos do Seminário de Coimbra, mas os de outras escolas de formação teológica do País. Assim, em 1952 saíu a primeira edição da Sinopse dos Quatro Evangelhos (que seria reeditada em 1969). Seguiram-se, em 1957, o Atlas Histórico do Novo Testamento, em 1961, a Gramática Grega do Novo Testamento e, em 1965, a Selecta de Grego Bíblico. Entretanto publicava artigos de investigação sobretudo na revista "Lumen", de que se podem citar, apenas a título de exemplo, "A Comunidade de Qumrân e S. João Baptista" (1959); "Possíveis influências da Comunidade do Qumrân no Cristianismo nascente (1962); "Notas sobre a origem dos salmos"; "A comunidade de Jerusalém e a formação da Tradição Sinóptica" (1963); e "Hinos Cristológicos do Novo Testamento" (1965).

A "memória viva" da Diocese
Durante o seu tempo de professorado e sobretudo depois da jubilação, o Dr. Brito Cardoso dedicou especial atenção à história da Diocese e do Seminário de Coimbra, podendo dizer-se que ele foi, durante várias décadas, a memória viva dos acontecimentos do nosso passado eclesial. O seu grande amor à Igreja manifestava-se sobretudo no carinho que nutria pela Diocese e pelo Seminário - os dois grandes amores da sua vida. E como só se pode amar o que verdadeiramente se conhece, o cónego Brito passou meses e anos seguidos a investigar, sobretudo nos arquivos diocesanos e do seu Seminário. Daí nasceram várias obras, de que cito apenas meia dúzia, também a título de exemplo: "D. Miguel da Anunciação e a fundação do Seminário de Coimbra" (1959); "O Seminário de Coimbra, colégio e residência universitária" (1966); "A filosofia neo-escolástica no Seminário de Coimbra" (1967); "Súmula da História da Diocese de Coimbra" (1980); "A Diocese de Coimbra. Esboço Histórico" (1995).
Publicou igualmente cerca de uma dúzia de pequenas biografias, com o título geral de "Figuras da Igreja na Diocese de Coimbra", onde se incluem, entre outros, os nomes dos Bispos D. José Manuel de Lemos, D. Manuel Bastos Pina, D. Manuel Luís Coelho da Silva, D. António Antunes, D. Ernesto Sena de Oliveira e D. João António Saraiva; e dos padres Américo Aguiar, Tiago Sinibaldi e Manuel Fernandes Nogueira.

Colaboração no "Correio de Coimbra"
Além de colaborar em revistas e enciclopédias (onde assinou vários artigos), o cónego Brito Cardoso ilustrou as páginas do "Correio" com vários textos relativos ainda à história do Seminário e da Diocese, ou evocando sacerdotes distintos. Assim, recordo as notas "in memoriam" dos cónegos Prudêncio Garcia, Adelino Gaito, Liberato Tomé, Júlio António dos Santos, José Augusto Amado; e dos padres José Natividade Serra (o pároco que o guiou para o Seminário) e Alírio Gomes de Melo (que foi seu professor em Coimbra), De referir são vários artigos de índole histórica, como "A Diocese de Coimbra e o Grande Cisma do Ocidente" (1990); "O Seminário de Coimbra e as invasões francesas" (1987), "O Dr. António de Vasconcelos e a Biblioteca do Seminário de Coimbra", "Luta pela posse dos edifícios do Seminário durante o regime republicano", e tantos outros.
Sendo um homem de grande saber e vastíssima cultura, o cónego Dr. António Brito Cardoso era de uma afabilidade extrema, cativando pelo seu bom humor e pela simplicidade com que se relacionava quer com os colegas, quer com os alunos, quer com todos os que o procurassem no seu gabinete de estudo, que era o Arquivo do Seminário.
Por tudo o que fica dito, e pelo muito que não é possível referir num curto artigo de jornal, a memória do cónego Brito Cardoso deve figurar em letras de bronze nos anais do Seminário e da Diocese.
A. Jesus Ramos

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