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4 de dezembro de 2008

COMUNIDADES CRISTÃS COMPROMETIDAS

Por José Dias da Silva


O debate eclesial é uma atitude rara nas nossas comunidades. Para ajudar, quero continuar o tema abordado em números anteriores pelo Cotrim e pelo Cotovio sobre o (des)interesse que comunidades e Secretariados manifestaram pelo pedido do nosso Bispo para preparar os próximos anos pastorais.
Não vou insistir nesta “apagada e vil tristeza”, que traduz o quase total desinteresse, se não ignorância, do que se passa para lá da nossa quinta eclesial: cada um na sua capelinha parece ser uma regra de ouro da nossa pastoral. E já nem considero os que apenas se contenta com “cumprir o preceito dominical”.
Esta atitude todos nós a conhecemos e é bom que seja denunciada. Mas há que ir mais fundo: não ficar pelos comos mas passar aos porquês. As razões são múltiplas e complexas e grande atrevimento é o meu meter-me neste assunto. Mas um debate – e este é um debate necessário e urgente na nossa Igreja – deve contar com o contributo de todos independentemente do seu valor e da sua fundamentação sócio-teológica.
Em primeiro lugar, é uma verdade histórica que, pelo menos aos leigos, pouco ou nada é pedido em termos de opinião e decisão. Quanto muito reserva-se-lhes o papel de executores, mas mesmo assim sem autonomia e devidamente enquadrados. Por isso, queria manifestar o meu muito apreço pelo facto de o nosso Bispo nos ter desafiado não só a fazer a avaliação do quinquénio passado mas também e sobretudo nos pedir o nosso contributo para com ele definirmos o trabalho futuro. Pelo menos, o argumento usado por muitos de que ninguém lhes pede opinião cai por terra e vem sobretudo pôr a nu o desinteresse da maioria dos cristãos (cristãos e não apenas leigos) pela pastoral diocesana.
Admito que muitos se sintam incapazes, por ignorância, de entrar por estes caminhos (e já agora por culpa de quem?). Mas a maioria dos intelectuais, que não faltam a uma missa ao domingo, raramente estão disponíveis para este trabalho tão necessário para que uma comunidade seja viva e interventiva. Dispondo de uma formação intelectual, que falta à grande parte do povo de Deus, cabe-lhes uma responsabilidade acrescida na reflexão e na apresentação de propostas mais conformes às exigências de hoje. A maioria, no entanto, vive bem com um cristianismo formal e ritual. Esporadicamente poderá haver alguns, que se refugiam nos seus “Montes Tabores” onde “é tão bom estar aqui”, onde a reflexão é profunda mas para uso interno. Nada sai para proveito de uma Igreja diocesana sufocada pelos permanentes desafios e mudanças até de paradigmas que exigem respostas novas e criativas. É aqui que os cristãos “intelectuais” têm um papel indispensável: renunciar a ele é um pecado grave contra a comunidade de crentes a que dizem pertencer. Mesmo que a Igreja não seja o que eles querem (e felizmente nunca será, pois a Igreja é “simultaneamente santa e necessitada de purificação”: LG 8) e precisamente porque não é o que eles acham que devia ser, a sua vivência fechada é uma traição à Igreja e ao próprio Jesus Cristo que eles, não tenho dúvidas, amam profundamente. Dizer o que está mal é um passo importante se for público; mas terá de ser sempre e apenas um intróito à apresentação de propostas que apontam para eliminar o que está mal e estimular uma crescente aproximação ao “rosto de Jesus Cristo”. Acredito que se alguém se atrevesse a isso corria o risco de ser crucificado, apesar da doutrina conciliar (GS 43; LG 37, AA1-3, AdG 21), pelos representantes oficiais que cumprem religiosamente os rituais aprovados, sabem a doutrina, pelo menos a pré-conciliar, toda de cor e se julgam os únicos possuidores do “caminho do céu”, das únicas formas de evangelizar hoje. Uma Igreja que não acolhe, estimula e integra estas diferentes e novas experiências pastorais é uma Igreja envelhecida, quase anquilosada e pior ainda, sentada à beira do caminho da história, que vai avançando ao ritmo dos que caminham e não dos que ficam parados, angustiada por não saber o que fazer, limitando-se a repetir formas historicamente situadas e, portanto geralmente ultrapassadas.
Mas passando ao comum dos cristãos, uma das razões pelo profundo desinteresse diocesano resulta do facto de a Diocese não ter grande ou nenhum significado. O que é a Diocese para a esmagadora maioria dos cristãos? Quem faz ou fez uma catequese sobre a Diocese, sobre aquilo que, quase numa viragem copernicana, o Concílio reflectiu sobre as “Igrejas locais”? Quem sabe qual é a real função do Bispo? Quem já superou a ideia de que o Bispo é uma “espécie de criado do Papa” e percebeu que ele, em comunhão com o Papa e com todos os outros bispos, é igualmente responsável pelo governo de toda a Igreja (colegialidade) e de um modo especial da Diocese que lhe foi atribuída? Quem sabe que a Diocese não sendo “a Igreja toda” (as outras Dioceses, que alguns chamam Igrejas locais ou particulares, também são Igreja e é a comunhão de todas elas que faz a Igreja universal) é e contém em si “toda a Igreja”: “A Diocese é a porção do Povo de Deus, que se confia a um Bispo para que a apascente com a colaboração do presbitério, de tal modo que, unida ao seu pastor e reunida por ele no Espírito Santo por meio do Evangelho e da Eucaristia, constitui uma Igreja particular, na qual está e opera a Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica” (ChD 11)?
Que o debate continue e que as várias opiniões, fonte de riqueza, se manifestem por amor à Igreja que todos queremos cada vez mais fiel a Jesus Cristo e às mulheres e homens de hoje.

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