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16 de setembro de 2008

Sublimar a crise


Jorge Cotovio

Estamos em "crise". Todos a sentimos, embora com intensidades diferentes. Cabe-nos – principalmente a nós, cristãos – retirar desta crise os aspectos positivos, para podermos continuar a sorrir e a acolher com alegria e entusiasmo os outros, sobretudo aqueles que (ainda) são mais afectados do que nós. Não tenho dúvida que esta crise é mais um "sinal dos tempos" a alertar-nos para "coisas" muito importantes. Se não, vejamos:
Gastávamos muito e vivíamos acima das nossas possibilidades. Somos dos países com mais carros e telemóveis por mil habitantes na UE. A densidade das auto-estradas na Grande Lisboa é a maior da Europa. As agências de viagens continuam a prosperar. Somos pobres mas queremos passar por ricos. Andávamos iludidos com o "compre agora, paga depois", com os cartões de crédito, com os juros artificialmente baixos, com a facilidade em adquirir dinheiro que não ganhávamos. Idolatrávamos o prazer, o sensorial, o "use e deite fora". Julgávamos que os recursos energéticos que comandam o nosso dia-a-dia eram inesgotáveis, eternos. Julgávamos que este planeta, esta "Oikós" posta à nossa disposição para a fruirmos, aguentava tudo, até os nossos abusos e atentados. Julgávamos que, com mais progresso material, mais conforto, mais prazer, mais facilidades, éramos mais felizes. Mas não. Julgávamos que com mais polícia, mais metralhadoras, mais prisões e tribunais, estávamos mais seguros. Mas não.
Quanto a mim, esta crise é um "sinal" para ver se ganhamos juízo e nos "salvamos". Diz-nos que não conseguimos encontrar segurança, realização, "felicidade", no efémero, nas energias "esgotáveis". Temos de nos virar para os recursos naturais duradouros, como o Sol, o vento, as marés, que, por sua vez, nos projectam para outras "fontes" inesgotáveis, como Deus (criador do Sol, da Terra, do vento, da água, do petróleo, da inteligência humana, do homem, da mulher), como a Fé, como o Amor, como a Caridade – "fontes" que nos conduzem à autêntica felicidade.
Diz-nos que o "use e deite fora" não serve nem para a nossa casa nem para a nossa "casa comum", a Terra. Temos de poupar, reciclar, transformar, alindar, respeitar… e nunca estragar.
Nesta aldeia global tão frágil como plena de potencialidades, em que o custo do petróleo é afectado pela simples ameaça de uma tempestade tropical que se aproxima de uma plataforma petrolífera algures perdida no meio do Pacífico, precisamos de nos ater a ideias, princípios, valores, resistentes ao tempo e às tempestades.
A Igreja deve aproveitar este momento de desilusão do efémero para pregar o eterno, o inesgotável, o duradouro. Para explicar que o sacrifício, o sofrimento, o esforço, a austeridade fazem parte integrante da pessoa "feliz". Para proclamar, bem alto, que as (boas) relações estáveis e duradouras – designadamente na vida conjugal – são a melhor forma de nos sentirmos bem "por dentro", ou seja, "felizes".
Este Deus, tão simples como enigmático, tanto está na ventania do Pentecostes, como na brisa ligeira que Elias perscrutou, tanto está na prosperidade, como na "crise". Saibamos ler estes sinais "divinos" e "trans+formar" as nossas vidas, os nossos comportamentos, as nossas pastorais. Ou seja, saibamos "sublimar", "tornar sagrado" este momento de crise, deveras bem preocupante para (quase) todos.
Estamos a viver uma época crítica, difícil, mas apaixonante. Como pessoas, como cristãos, como comunidades, como Igreja, saibamos aproveitá-la e potenciá-la. Com esperança!

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