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12 de março de 2009

A Quaresma no meio da crise

José Dias da Silva


Na sua já habitual reflexão para a Quaresma, a Comissão Nacional Justiça e Paz procura dar um contributo para ajudar a repensar e transformar esta sociedade e a lançar novos fundamentos (já tão velhos!) para uma sociedade mais justa, solidária e humana. Pretende despertar para uma urgente evidência, a de “aprofundar e fazer passar para a cultura dominante e para a vida quotidiana uma nova mundividência que, por sua vez, permita enfrentar a crise com lucidez e determinação”. Este é efectivamente um dos grandes dramas, se não o maior, das sociedades modernas: vivemos num ambiente de permissividade, de egoísmo, de “salve-se quem puder”, de desconfiança do outro, de medo de dar a cara. Em tais circunstâncias torna-se difícil, mesmo para os bem intencionados e lutadores por um futuro melhor, manter o entusiasmo e a persistência numa luta que não pode (obrigatoriamente) produzir frutos imediatos.
Vou aprofundar um pouco mais uma das suas orientações: “Reconhecer que a teoria neo-liberal padece de um erro antropológico grave: o de considerar que a motivação central do comportamento humano está no interesse individual, e que, quando cada um procura o seu próprio interesse, a situação resultante é o bem comum da sociedade. A este erro acresce um segundo, o de pensar que o mecanismo através do qual esse bem comum é atingido é o mercado, que deve poder funcionar livremente, ou seja, em livre concorrência”.
A Igreja tem denunciado o “erro economicista” que irmanava os sistemas capitalista e comunista: nenhum deles considera a pessoa como sujeito, como agente da história, mas como um número; para um, a pessoa é um mero consumidor-produtor; para outro, um simples número na engrenagem social; ambos nos reduzem ao anonimato da colectividade, entalando-nos ou “sufocando-nos entre os dois polos: o Estado e o mercado” (CA 49). A queda do comunismo agravou a situação, pois numa sociedade, onde sempre tem que haver vencedores e vencidos, a derrota do comunismo significou a vitória gloriosa do capitalismo. E, na história, sempre foram os vencedores quem dita a lei. João Paulo II bem clamou que “é inaceitável a afirmação de que a derrocada do denominado ‘socialismo real’ deixe o capitalismo com único modelo de organização económica” (CA 35). Mas de que valem estas palavras contracorrente no meio da euforia e em tempo de “vacas gordas”. Nem mesmo aqueles, que agora se gabam de ter previsto a crise há não sei quanto tempo, deram atenção a este aviso. Os resultados aí estão. Não como exercício académico para intelectuais estudarem, mas na vida real de cada um, especialmente dos mais fragilizados. Agora, os que tanto defendem o mercado livre e desregulado não têm pudor nem escrúpulos (alguma vez os tiveram!?) para pedir aos Estados que intervenham, que lhes forneçam o combustível para poder manter o sistema, continuar a cometer o mesmo erro economicista, alimentar as mesmas ganâncias, na aldrabice do faz de conta que se está a ajudar a economia real quando o que querem é ajudar-se a si próprios à custa do dinheiro de todos. Aqui, os poderes executivo e o legislativo têm responsabilidades enormes, porque os oportunistas, disfarçados com o ar mais sério do mundo, não têm quaisquer problemas. O deus dinheiro tem uma força divina e seguidores absolutamente fiéis e coerentes.
Se fosse um pobre a roubar um pão no supermercado para matar a fome aos filhos, rapidamente a justiça actuaria e o mais certo era metê-lo na cadeia; mas estes “grandes senhores”, que nunca se baixariam a roubar a ninharia de um pão, vão escapando pelas malhas da lei ou pela conivência do sistema, exceptuando algum mais descuidado ou menos experiente nestes caminhos tortuosos mas muito eficientes.
É, pois, urgente criar um ambiente diferente. É tempo da sociedade civil acordar. É tempo de exercer uma cidadania activa e interventiva. É tempo de nos juntarmos todos na luta contra este ambiente que se alimenta da injustiça e gera injustiça, destrói a solidariedade e debilita a democracia. Porque, no fundo, trata-se de um ambiente de permissividade que todos promovemos, consciente ou inconscientemente, com pequenos contributos, por acção ou por omissão: a cunha, o nepotismo, a pequena corrupção, a indiferença e até a ingenuidade. Estes pequenos gestos imorais, porque são sempre multiplicados por milhões, vão anestesiando a consciência, desbotando a sensibilidade, amordaçando a capacidade de intervir, alimentando este ambiente iníquo. E só quando já não há retorno e a crise atinge a todos é que acordamos, com o ar mais inocente do mundo, como se nada tivéssemos a ver com o que está a acontecer. Então multiplicamos culpados, distribuímos responsabilidades por todos, menos por cada um de nós, atiramos pedras indiscriminadamente, refugiamo-nos numa virgindade ofendida e seraficamente daí lavamos as mãos.
Paulo VI bem avisara: “Não basta recordar os princípios, afirmar as intenções, fazer notar as injustiças gritantes e proferir denúncias proféticas; estas palavras ficarão sem efeito real se não forem acompanhadas, para cada um em particular, de uma tomada de consciência mais viva da sua própria responsabilidade e de uma acção efectiva. É por demais fácil alijar sobre os outros a responsabilidade das injustiças se se não dá conta ao mesmo tempo de como se tem parte nelas e de como a conversão pessoal é algo necessário, primeiro que tudo o mais” (OA 48).

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