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10 de março de 2009

Novas Linguagens


Jorge Cotovio
Segui com alguma curiosidade três debates na televisão sobre outros tantos temas "fracturantes" do momento actual - o casamento de homossexuais, a eutanásia e a educação sexual nas escolas.
Comungando da opinião da Igreja sobre estas matérias, procurei fazer o seguinte exercício: colocar-me como um cidadão neutro, para ver se os argumentos veiculados pelos sacerdotes presentes me convenciam. E confirmei o que há muito verifico: o nosso discurso é (quase só) perceptível por quem já está habituado a ouvi-lo. Os que estão fora dos nossos esquemas, da nossa doutrina, das nossas dinâmicas, da nossa linguagem, ou não percebem, ou não se convencem, e até ridicularizam a situação.
Pelo menos dois dos sacerdotes presentes são pessoas competentíssimas e habituadas a estes confrontos - os Padres Vaz Pinto e Vasco Pinto de Magalhães. Mesmo assim, ou por culpa dos moderadores, ou do contexto, ou deles próprios, o certo é que, se eu não estivesse minimamente dentro destas lógicas, não ficava muito convencido. Eu sei que os moderadores têm o hábito de interromper sistemicamente os convidados, cortando linhas de pensamento, não dando espaço a demoradas fundamentações teóricas. Pelo contrário, são pragmáticos e querem soluções rápidas e sedutoras para prender os telespectadores. Mas quem está "do outro lado" está a jogar com as mesmas cartas e tem, não poucas vezes, muito maior impacto…
A Igreja tem uma doutrina fantástica que conduz o homem à felicidade. Nós temos a boa notícia que este Deus está vivo, nos Ama, apesar da nossa maldade e das nossas "traições". Temos a promessa da Vida Eterna, sedutora, porque plena de felicidade. Só que pregamos mais o "vale de lágrimas" do que a alegria. Falamos mais em sofrimento, sacrifício, renúncia, do que em satisfação, bem-estar, felicidade. Parece que preferimos mais a Paixão do que a Páscoa. Ou seja, temos um grande problema de comunicação. Estamos em ondas diferentes com a sociedade. Diz a este respeito Mons. Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura: "A Igreja tem dificuldade em se fazer compreender. Temos linguagens demasiado pantanosas e por vezes curiais. Para além da sebe da comunidade eclesial, a linguagem tem tons diferentes, usa mais recursos do que nós, é mais directa, oportuna, mais adequada aos estilos da modernidade" (Família Cristã, Maio/2008, p. 51). E sabem o que é que o nosso Patriarca D. José diz a este propósito? "Para que a Igreja exerça a sua missão neste mundo, em mudança acelerada, não pode ser sempre a mesma na sua linguagem, nos seus ritos, na sua maneira de ceder e lidar com o mundo. O mundo mudou, a Igreja precisa de mudar ao ritmo da missão" (Família Cristã, Julho/2008, p. 50).
Bem, pelo menos duas altas personalidades da Igreja concordam comigo… E quase todos concordamos que se a nossa doutrina é muito "rica", por vezes também é demasiado elaborada, hermética, acessível só a alguns. (E se suspeitamos que nem todos os que a percebem a tentam praticar, o caso torna-se ainda mais grave…). É claro que me custa ler o que li há tempos na revista Visão. Segundo ela, parece que Eduardo do Prado Coelho, uns tempos antes de morrer, teria dito mais ou menos o seguinte: "Gostaria que a doutrina da Igreja fosse de generosidade, alegria, amor pela vida. Mas na maior parte das vezes é um conjunto inacreditável, bolorento, enferrujado de absurdos" (Visão, 30/8/2007, pp.96/97). Pois é, embora não concorde com a segunda parte, parece ser o que "eles" sentem…
É urgente revermos a nossa linguagem, nas traduções de textos bíblicos, nas encíclicas, nas notas pastorais, nos discursos solenes e "de ocasião", nas homilias, nas celebrações, na catequese, nos retiros, nas reuniões, etc. E usarmos de alguma habilidade linguística quando saltamos a nossa sebe e penetramos no mundo. Sem mundanizar a nossa linguagem, por que não sublimar a linguagem do mundo, tornando-a "sagrada"? Talvez assim haja menos confrontos e mais conversões. O que terá de haver, certamente, é mais imaginação e maior conhecimento deste mundo, para o "trans+formar" não só de dentro da nossa sebe, bem "protegidos", mas, sobretudo, do lado de lá, com os homens e mulheres reais, nossos irmãos.
Neste tempo de Quaresma, saibamos reconhecer, com humildade, que todos (mesmo "todos") somos chamados à conversão, não para continuar a manter os "serviços mínimos", mas para nos lançarmos em voos mais arrojados, mais "sedutores", mais sublimes.

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