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3 de fevereiro de 2009

Ética Cristã


Por José Eduardo Reis Coutinho

Há 15 dias, este periódico noticiava, no destaque da primeira página e com realce, a vermelho, a fome crescente, o notório alastramento em Coimbra e o dedicado esforço das Criaditas dos Pobres, empenhadas no único propósito de servir os mais carenciados da sociedade, identificando casos de necessidade, confeccionando refeições, cuidando de tarefas domiciliárias, de doentes e desprotegidos, assumindo a verdade dos preceitos evangélicos, vivendo, realmente, na conformidade orante de quem louva o Senhor, O testemunha na dedicação aos irmãos e, nobremente, promove o autêntico bem comum.
Os cristãos dos primeiros séculos gostavam de representar Jesus na perfeita imagem do Bom Pastor, autoproclamado na parábola homónima (Jo 10, 11 e 14), por ser a personificação da comunidade que cuida dos seus, praticando a efectiva corresponsabilidade, para todos presenciarem a implantação do Reino de Deus e vivenciarem a melhor unidade da fé, no concreto dinamismo de São Tiago (Tgo 2,17), a fim de prevalecer a solidariedade crescente, ritmada num só coração e numa só alma (Act 4,32-37), porque é único e o mesmo o Espírito Consolador, Paráclito.
Estes admiráveis procedimentos paleocristãos assinalaram o preciso comportamento exigido aos catecúmenos e aos baptizados, aos fiéis e aos ministerializados, o que cimentava convicções doutrinais, aplicadas em coerentes práticas quotidianas, robustecidas pela fortaleza testemunhal da Sagrada Vinha do Senhor, cujo sangue dos frutos maduros foi seiva vivente, a germinar na semente nova de seguidores devotos, de luz do mundo, sal da terra, fermento da massa inerte, a tríade transformadora do velho modelo caduco, a tríplice imanência gloriosa, propulsionadora da resplandecente identidade cristianizada.
As narrativas canónicas, acerca dos tempos iniciais, consignam o ânimo salutar dos discípulos, cumpridoramente assíduos ao ensino, à união fraterna, à oração e à fracção do pão (Act 3,42), que, pelo sólido entertecer unívoco desta dupla componente, agiam de maneira condizente, vendendo propriedades, para oferecerem o produto, em proveito dos órfãos e das viúvas; distribuindo somas avultadas, para utilidade dos menos afortunados; estabelecendo uma rede social, eficaz, direccionada na valorização integral da pessoa humana, começando pelos irmãos na fé e incidindo em qualquer eventual desprotegido.
Basta mencionar alguns exemplos paradigmáticos: nos anos de 408-410, suscita enorme ressonância a decisão da milionária Melânia e do marido, Piniano, de venderem os imensos latifúndios, dispersos pelas províncias imperiais, e de seguirem vida ascética, todavia, como encontraram muitas dificuldades, porque subvertiam a sociedade aristocrática, de uma só vez reuniram 45 mil sólidos *, entregues aos pobres e aos santos (Vita Melaniae, 17); depois, entre sucessivos casos, Paula demonstra peculiar generosidade (Jerónimo, Epistola 108, 16), a par de vários patrícios de Roma, que praticavam idêntico desprendimento, como Nebrídio (Ep.79, 2 e 5) e Pamaquião (Ep. 66, 5), exaltados pelo mencionado autor.
Segundo informa o mártir São Justino (Apologia I, 15, 9-15), a colecta dominical era para obras assistenciais, no século II, constando as ofertas de géneros alimentícios (pão e vinho, leite e mel, frutas secas e legumes), de vestuário, dinheiro, objectos preciosos e frutos da estação, em algumas localidades, os quais, também provenientes de iniciativas privadas e colectivas, enchiam cestas de junco, sendo distribuídas, prioritariamente, pelas viúvas, mantendo o que fora estabelecido como hábito de ajuda, facto que seguia o padrão da herança judaica, cumpria um ideal helenístico e lhes provia o sustento, inclusive dos convertidos pobres.
Isso está consignado nas inscrições funerárias, quando atestam a generosidade dos defuntos, pois, enquanto as pagãs exaltam a actividade evergética do morto, as cristãs asseveram a mudança de valores e a nova sensibilidade, louvando uma vida dedicada ao amparo dos necessitados, como explicita o epitáfio de Júnio, em 341, ao declará-lo amator pauperorum e à mulher amatrix pauperorum et operaria, dizendo-a verdadeiramente devotada às causas assistenciais. Noutras ocorrências, o uso do termo stipendium - nunca esmola, ou, expressões similares - remete para a existência de listas específicas dessas pessoas assistidas, por meio daquelas aludidas ajudas, confiadas ao ministério dos diáconos, diariamente.
Foram estas incontáveis realizações que muito vingaram através das gerações, atentas ao modus vivendi, abertas ao Espírito Santo e cientes de transmitirem o melhor legado, em breve materializado nas valências objectivadas em hospícios, gafarias, orfanatos, asilos e qualquer explicitude das obras de misericórdia, corporais e espirituais, fundadas na sã partilha das riquezas obtidas da terra, dos rendimentos auferidos e do profundo sentido do mútuo auxílio, nas épocas de carestia, fomes, cataclismos e epidemias, tão frequentes nas vicissitudes historicamente documentadas.
Lamentavelmente, na farta civilização(?) dos tempos correntes, a riqueza, mal distribuída, tem contaminado, até, quem está investido em precedências ilusórias, cujos gestos e critérios apenas denotam assumidas mundanidades: as conversas, incidem no futebol, nas comezainas, na criticazinha fácil e no envenenamento camuflado; alguma oração, é farisaica e rotineira; dos muitos haveres, amontoados, nada é partilhado; a opulência ressalta da sobreabundante acumulação de aparelhagens, centrada num divertículo de conforto excessivo, a par de privilégios intocáveis, numa hábil rendição ao paganizante, em detrimento da graça salvífica.
Quem dera, à luz de Deus, relativizar o utilitarismo desmedido, para repor o signo da fé coerente, mediante a radicalidade evangélica, inequivocamente manifestada na austeridade, na sobriedade, nas virtudes cardeais, nos frutos do Espírito Santo, nos válidos deveres e alegria de ter o Supremo Bem na Pessoa Divina de Jesus Cristo, sendo cada qual aquilo que é de esperar, pelo carácter levedante do fermento, pelo sabor indizível da fidelidade transparente, pelo brilho formoso da revigorante frescura do Reino de Deus, chegado, aniquilador das incoerências perigosas e dos nefastos desvios desfigurantes do que melhor convém ao homem de hoje (Hebr 12, 1-3).

*(cada moeda de ouro dava para uma pessoa viver parcamente, durante um ano.)

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