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15 de janeiro de 2009

Há cada vez mais pessoas a recorrer à Cozinha Económica


A fome está a alastrar em Coimbra. Há cada vez mais pessoas a recorrer à “Cozinha Económica”, motivados pelo desemprego ou por outra determinada situação. Esta instituição é uma das respostas que, entre tantas outras carências constatadas, pretende dar de comer a quem tem fome. Diz quem sabe e quem diariamente convive com esta realidade que há mais gente a pedir ajuda, o equivalente a reconhecer que há muitas pessoas que não têm forma de se sustentar.
O cenário actual, marcado por graves problemas sociais, mostra a insuficiência do Estado para responder e suprir todas as carências. É face a esta realidade, de ser preciso agir para ajudar quem precisa, quanto mais não seja para matar a fome, que a sociedade civil é chamada a assumir a sua responsabilidade social e contribuir para ajudar a minorar as carências de muitos.
Falta pouco menos de meia hora para a Cozinha Económica abrir portas e já há gente à porta. O ritual repete-se duas vezes por dia, ao almoço e ao jantar, no n.º 7 do Terreiro Mendonça, um largo perdido no labirinto das ruas da baixa de Coimbra onde está instalado o refeitório social.
Embora a Cozinha Económica seja actualmente uma das valências da instituição particular de solidariedade social (IPSS) que inclui também um centro de dia e o apoio domiciliário, há muitos anos que esta obra, onde servem três irmãs da congregação das Criaditas dos Pobres, é o local onde muitos, mais que o desejado, têm uma refeição completa a troco de uma comparticipação. Mais do que simbólico, o preço tem o objectivo de salvaguardar a dignidade de cada um.
À porta daquele largo onde chegam cada vez mais pessoas – adultos, jovens e crianças – e daquela porta para dentro, a dignidade humana de cada um é valor intocável. “Ninguém deve ter de mendigar por um prato de comida. Pouco ou muito, cada um comparticipa na medida do possível a sua refeição”, sustenta a assistente social Ana Maria Cristovão, uma das responsáveis por esta obra.
A generalidade dos utentes do refeitório social são normalmente encaminhados por vários serviços da rede social, que identificam os casos de carência. Estes têm a sua refeição comparticipada enquanto que os restantes pagam na medida das suas possibilidades.
Para além da refeição, há uma outra vertente de apoio social que, trabalhando em rede com os responsáveis da Cozinha Económica, permite que os utentes sejam acompanhados por outras entidades e equipas multidisciplinares, com o objectivo de dar uma resposta adequada a cada caso.
Em azáfama constante, são servidos diariamente cerca de 300 almoços e 180 jantares. “As irmãs têm uma forma única de lidar com as pessoas”, afirma Ana Maria Cristóvão.
Ao longo de muitos anos, desde que a Cozinha Económica foi criada, em 1933, um sem número de rostos passaram por esta obra social onde a dedicação aos mais carenciados é o único propósito. A irmã Lucinda, encerra na memória e guarda no coração muitas estórias de vida, tantas, que dariam para encher por completo várias páginas de um livro. O seu testemunho, embora reservado, diz pouco do que lhe vai na alma e, no entanto, é claro no propósito das Criaditas dos Pobres: “A criadita está para servir, onde somos chamadas e onde é preciso. Bem gostaríamos de estar presentes em todas as situações, atender a todos os que precisam, ajudar todos os pobres, mas como sabemos que isso não é possível fazemos o que podemos”, confessa.
Para servir todos os que precisam, sem julgamento, sem distinção, depositando na confecção das refeições o amor e o carinho que nutrem por quem pouco ou nada têm, as três irmãs que servem na Cozinha Económica não reduzem às tarefas mundanas o seu serviço ao próximo. “Quando precisam e nos falam ou quando nós percebemos que precisam mas eles não dizem, somos a mãe, o pai, a irmã e o ombro amigo”, explica a irmã Lucinda.
A assistente social Ana Maria Cristovão sabe que só com um grande espírito de sacrifício e de solidariedade é possível suportar determinadas situações. E por isso, considera que “as irmãs são elementos fundamentais”. O respeito que os utentes lhes têm e um elevado espírito protector para com as Criaditas dos Pobre é o reconhecimento da prova de amor que as irmãs lhes dão diariamente.

Cozinha Económica dá de comer a quem tem fome
Os primeiros estatutos da Cozinha Económica datam de 1955. Mais recentemente, embora tenha surgido como obra social, houve uma passagem natural a IPSS, cuja direcção é actualmente presidida por Maria Emília Simões Soler. Apesar destas alterações formais, a assistente social Ana Maria Cristovão não tem dúvidas em afirmar que o lema e objectivo principal se mantêm. “Está fora de questão que alguém venha a esta casa e passe fome. Estamos aqui para suprir essa necessidade básica que todas as pessoas têm”, explica.
Uma refeição completa, com sopa, prato, pão e fruta custa ao utente 1,40 euros, um valor simbólico que só é possível graças à comparticipação do Estado, através da Segurança Social mas também, fruto da boa vontade e solidariedade de muitas empresas e particulares que, em géneros ou em dinheiro, contribuem para que o prato do refeitório social chegue cheio à mesa dos que mais precisam.
Aberta durante toda a semana, com refeições a serem servidas às 12h00 e às 18h30, a Cozinha Económica serve diariamente quase 500 refeições. Ao fim-de-semana, como já aconteceu, quando alguém bate à porta, apesar de não ser dia de almoço ou jantar, as Criaditas dos Pobres não têm coragem de manter do lado de fora alguém que tem fome. Excepcionalmente, do pouco que têm, muito vão partilhando.

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