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18 de fevereiro de 2008

Nas Jornadas de Teologia do ISET


O laicado em Portugal precisa de formação

As Jornadas de Teologia do Instituto Superior de Estudos Teológicos (ESET) decorreram nos dias 15 e 16 de Fevereiro, no auditório da delegação do Instituto da Juventude de Coimbra. Ao concluir estas jornadas, D. Albino Cleto deixou uma mensagem de esperança aos cerca de 100 participantes que se congregaram estes dois dias à volta do tema “Os leigos e o futuro da Igreja”. Para o Bispo de Coimbra, o laicado está a viver uma “autêntica primavera”. O prelado da diocese reconhece que a Igreja tem que saber melhor preparar o laicado. Congratulou-se pelo facto de alguns leigos sentirem a necessidade de formação doutrinal na área da política ou cívica. Desafio, esse, que foi lançado pelo vice-presidente da Câmara Municipal de Coimbra, João Rebelo, em que se poderá vir a traduzir na realização de umas jornadas nacionais, organizadas pela Comissão dos Bens Culturais da Conferência Episcopal. D. Albino reconhece que os leigos tem que ser presença no mundo de hoje, mas para isso, necessitam de formação. Quanto a esta matéria, todos os conferencistas foram unânimes: os leigos precisam de formação!


Abel Pinto: A organização do mundo do trabalho
acentua “cultura baseada no medo”
O economista Abel Pinto, o primeiro conferencista das Jornadas de Teologia, criticou, a organização do mundo do trabalho, considerando que acentua “uma cultura de gestão assente no medo e na subserviência ao chefe” e não privilegia uma cultura de excelência.
O especialista falava nas Jornadas de Teologia organizadas pelo Instituto Superior de Estudos Teológicos (ISET) de Coimbra, subordinadas ao tema “Os leigos e o futuro da Igreja”.
Pinto censurou um mundo do trabalho, característico do modelo económico dominante, “profundamente desigual” em termos remuneratórios e em que a facilitação dos despedimentos, ritmos intensivos de trabalho e “uma crescente precarização” são medidas apresentadas como necessárias para garantir a continuidade e competitividade das empresas.
Assiste-se ainda – adiantou durante a comunicação que proferiu – a “uma acentuação duma cultura de gestão assente no medo, na subserviência ao chefe e numa postura acrítica ao que se passa na empresa”.
Além disso, há “pouco estímulo à cultura da excelência e a que cada um dê o melhor de si, acompanhada por uma partilha mais equitativa do rendimento gerado em cada ano”.
“Temos um mundo do trabalho em que a maioria das pessoas estão muito descontentes do ponto de vista material, nem sempre motivadas do ponto de vista técnico e profissional e muito revoltadas com a forma como são tratadas pela hierarquia das empresas e das organizações, desde a chefia imediata à gestão do topo”, sublinhou.
De acordo com o economista, “a maioria dos trabalhadores encara o emprego, não como uma forma de realização pessoal e humana, mas como uma componente muito penosa da sua vida, mas da qual não pode fugir dado tratar-se da única via que lhes permite aceder ao dinheiro possível para assegurar a sua sobrevivência e do seu agregado familiar”.
Segundo o antigo dirigente da Juventude Operária Católica e ex-sindicalista, “é possível construir empresas competitivas cuja gestão assenta em princípios éticos, contabilidade transparente.
“É possível criar empresas competitivas e onde os trabalhadores sejam vistos como uma componente fundamental do seu investimento e não como componente de custo que urge racionalizar a qualquer preço”, sublinhou.

Guilherme Oliveira Martins: “O diálogo entre fé e razão é essencial!”
O presidente do Tribunal de Contas, Doutor Guilherme de Oliveira Martins, abordou na segunda sessão das jornadas do ISET, o tema os “Leigos e presença da Igreja no mundo da cultura”. O conferencista afirmou que “o diálogo entre fé e razão é absolutamente necessário para a compreensão do fenómeno cultural”. Ao analisar o fenómeno religioso nas sociedades contemporâneas, Guilherme de Oliveira Martins diz que há uma profunda ignorância sobre esta matéria. O fenómeno religioso é responsável pela falta de diálogo entre culturas, conduzindo a incompreensão, indiferença e mesmo à violência que se traduzem em choques entre religiões. Para contrariar este efeito, que na sua opinião é uma sociedade “vazia de valores”, o antigo ministro da Educação do Governo de Guterres, afirma que é necessário “garantir o diálogo entre a fé e a razão”.
Segundo o Professor Guilherme de Oliveira Martins, “é preciso fazer-se um percurso exigente na busca da liberdade e da autonomia”. O conferencista referia-se no dever do cristão em aceitar os outros, com as suas diferenças culturais, éticas e religiosas. “Nunca seremos os proprietários da verdade”, exclamou perante o auditório.
Noutro ponto Guilherme de Oliveira Martins, abordou a “cultura como sendo a afirmação humana perante a natureza, que permite-nos entender o nosso próprio lugar na construção do mundo”. Para o presidente do Tribunal de Contas, não se pode falar de cultura sem abordar a pessoa humana, na sua pessoa complexa, em diálogo com os outros e com a sociedade. Segundo Guilherme de Oliveira Martins, “quando se fala de cultura, fala-se de sementeira, tradição, herança e património (material e imaterial)”. “Uma cultura não pode ser uma cultura esquecida, amnésica”, disse, tem que ter uma “referência do “passado (memória), do presente (agora) e do futuro (com alguma projecção)”. “Falar de cultura hoje, é falar de relação entre memória e a criação daquilo que recebemos e legamos, aquilo que semeamos e aquilo que colhemos”, disse ainda ao abordar o tema.
“Falar de cultura é também falar da capacidade de aprender”, segundo Guilherme de Oliveira Martins. A sociedade hoje, é uma sociedade de aprendizagem, uma sociedade educativa. Por isso que “educar” e “cultivar” são termos próximos. No entanto, o conferencista chama a atenção para uma pequena particularidade: “aprender não é só acumular informação”. É necessário interpretar, entender e compreender.

Jorge Cotovio: “leigos a meio tempo, não dá!”
“O (bom) professor, na sua relação pedagógica, dá-se ao aluno, procurando criar condições para que desabrochem os seus talentos, as suas potencialidades”. Esta afirmação é de Jorge Cotovio, responsável pelo núcleo das Escolas Católicas da Diocese de Coimbra ao abordar o tema “O leigo na (sociedade e na) escola”. Jorge Cotovio referia a missão do papel do leigo na escola, mas também na sociedade e na Igreja
Para o director pedagógico do Colégio de São Teotónio, “leigos a meio tempo, não dá!”. “Se queremos leigos «em exclusividade», – a Igreja tem que lhes proporcionar – “condições e contrapartidas”, referiu o pedagogo. Quanto ao lugar dos leigos na Igreja, Jorge Cotovio afirma que “eles ainda esperam, em silêncio, por serem chamados para uma verdadeira participação”. Na sua opinião, “faz-se, hoje, muito apelo aos leigos, principalmente porque há falta de vocações sacerdotais”, se não, a Igreja já tinha despertado há muitos anos atrás, quando “os ventos do concílio eram favoráveis”.
Neste domínio, Jorge Ferreira Cotovio deixa algumas linhas de orientações à Igreja: “há que acolher os leigos, estimá-los, valorizá-los, não só ouvi-los, mas também torná-los participantes activos nas decisões, integrá-los nos órgãos de cúpula, não para mandar, mas para melhor se sentirem corresponsáveis no serviço.”

João Rebelo: “a política é uma arte de servir os outros”
João Rebelo, vice-presidente da Câmara Municipal de Coimbra abordou o tema «Leigos e presença da Igreja na actividade política». O autarca não gosta muito de diferenciar a participação cívica com a participação política. Segundo o seu testemunho, o cargo público que exerce actualmente na autarquia de Coimbra, é apenas de passagem, e tenta exercê-lo o melhor possível, servindo a comunidade. Para João Rebelo, a política é “uma arte de servir os povos e servir os outros”. Hoje é uma ciência e estuda-se política, apresentando-se em três tipos: doutrina; orientação e discussão de ideias.
A participação é um dever essencial de todos, disse, mas, para haver participação, é necessário que haja informação. “Não podemos opinar sem saber aquilo que estamos a dizer ou a escrever”. Por outro lado, na política, é necessário que haja “sentido de justiça social”. Um político deve preocupar-se com o bem colectivo e não com o bem pessoal. Não participar na vida política é segundo o autarca de Coimbra “pôr-se à margem da discussão pública”. Os cristãos devem ser os primeiros a participarem na actividade política e de visarem o bem colectivo, “deveriam estar na primeira linha de participação”, rematou. Quanto ao facto de um estado ser laico, João Rebelo é frontal e diz, “que nada pode inibir um cristão de agir e actuar, pondo em prática os valores e ensinamentos que fazem parte do seu percurso de vida”.
Para justificar, João Rebelo, salienta que a Igreja também diz que os cristãos não podem deixar de actuar e defender uma sociedade de valores. “Só participa quem se sente parte dela”, afirmou. João Rebelo salienta que alguns documentos devem servir de manuais para os políticos-cristãos, como o documento Gaudiam et Spes (que é muito conhecido na sua generalidade e pouco conhecido na sua profundidade); o compêndio da Doutrina Social da Igreja; a carta da CEP de 2000 e o documento “Comportamento dos cristãos na vida política”.
João Rebelo deixou algumas provocações a quem queira fazer política: agir com prudência; servir a pessoa humana; o Estado sendo laico, a sociedade não é; a laicidade só tem sentido quando se faz dela uma religião e relembrou para a necessidade de uma profunda reflexão sobre a Doutrina Social da Igreja.
Por fim, o vice-presidente da Câmara de Coimbra deixou um desafio à Igreja, para a necessidade de uma formação cívica e política para os cristãos que exercem determinadas actividades públicas, quer sejam nas autarquias, nas freguesias ou instituições públicas.


D. Manuel Clemente: “Falar no leigo no futuro da Igreja é a mesma coisa que falar da Igreja no futuro do laicado”
O Bispo do Porto, D. Manuel Clemente referiu que a hierarquia da Igreja tem o dever de apoiar o laicado. “Falar no leigo no futuro da Igreja é a mesma coisa que falar da Igreja no futuro do laicado”, disse ao terminar as Jornadas de Teologia do ISET. O presidente da Comissão dos Bens Culturais da CEP, reconhece que a Doutrina Social da Igreja deve ser muito mais contemplada que aquilo que é”. “Ao fim de 10 anos de catequese e da catequese para adultos, continuamos completamente em branco”, criticou o prelado, sentido, a necessidade de uma profunda mudança neste campo.

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