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20 de fevereiro de 2008

Acuidade de sermão do Padre António Vieira à Universidade


Apenas um sermão o Padre António Vieira pregou em Coimbra, e tal oportunidade ocorreu na Real Capela de São Miguel, na Universidade, em 1663. Um evento intemporal e, também, muito incisivo nos dias que correm, a merecer ponderação em qualquer escola superior.
O propósito do Autor visava engrandecer Santa Catarina de Alexandria, realçando-lhe os méritos alcançados no singular encontro tido com os 50 prestigiados detentores do saber da Antiguidade Clássica, componentes da elite escolhida para, na presença do imperador Maximino, ser declarada a portentosa vitória daquela Academia sobre os conteúdos da fé e da salvação, que a jovem proclamava e defendia, com heróica coragem.
Quis iniciar a pregação a partir da parábola das virgens loucas e prudentes (Mt 25), para evidenciar a verdadeira Sabedoria que, para si própria, edifica uma íntima morada (Prov 9, 1), onde habita e da qual flui todo o seu densíssimo e cativante viver, constituindo, como assunto, as vitórias alcançadas, e, como título honorífico, a Sabedoria triunfadora; por tudo, a mais querida companhia da vida.
Um abundante recurso de similes e demais analogias é evocado, sucessivamente, a fim de estabelecer a percepção de tantos paralelismos antitéticos, suficientemente esclarecedores da arrogância petulante, sempre maior do que a soberba agigantada pela obstinação e rebeldia humana, quantas vezes inchadas de presunção.
Esse contínuo entendimento, correspondente à capacidade intuitiva da visão lúcida, é factor de receptividade dos autênticos valores divinos; de contrário, sucede a dúvida, como dos Apóstolos, face à notícia transmitida por Maria de Magdala, na manhã da Ressurreição, por vir de uma mulher e serem eles preconceituosos.
Relutante acerca de tantas práticas, programas e métodos, aceites como boas acções pastorais e catequéticas, mas, ineficazes na persuasão dos destinatários, porque destituídos da capacidade arrebatadora e alheios à necessária humildade, o Padre António Vieira insiste nesta dimensão, a única que poderá tocar por dentro, que desfaz couraças e move os corações.
Isso torna-se um mal ou obstáculo, pelo facto de conceder especial relevo a simples aspectos acidentais, empolados pela doutrina, honra e reputação da respectiva escola formadora, ou devido à ênfase transmitida; saber render-se é, manifestamente, diferente da pior e derradeira defesa, recorrendo ao arremetamento de pedras, como os opositores de Estêvão (Act 6, 9-10).
Daí, uns permanecerem duros e obstinados, enquanto outros persistem derrotados, mas, sem convicção, incapazes de assumir um comportamento crítico, perante o prévio crédito das opiniões individuais, da soberba e da certeza científica, tantas vezes esvaziadas da auto transcendência activa, que a tornaria plena de superior dignificação.
O exemplo dos tetramorfos de Ezequiel (1, 10) é paradigmático do resultado inerente à companhia e ao trato de qualquer ser humano com as pessoas próximas, que faz iguais ou outros que tais: o Boi – animal submisso e humilde –, que na primeira visão assim aparece, na segunda surge transformado em Querubim, porque da convivência com o Homem e com a Águia, respectivamente, recebe o rosto humano e as asas características, enquanto o Leão mantém a mesma forma, visto a inchação e a sobranceria impedirem a introdução de outra configuração.
Mediante a docilidade do coração, respondida por Salomão à benevolência divina (1 Rs 3, 5.9.12), Deus cumulou-o de Sabedoria, equivalente ao conhecimento claro do verdadeiro saber: a predisposição para procurar a consistente perenidade da luz de eterna formosura.
Isto contraria o relativismo, a fluidez das convicções, a simpatia servilista, o culto do somente querer ser agradável, pois, a maior tentação do letrado está em inclinar-se à vontade e ao empenho individualista do superior, a fim de ficar bem visto, em vez de persistir constante no que se impõe de categórico, num imperativo de recta consciência.
Liberto desta tendência calculista, o comum da sociedade teria dedicação ao bem público, manifestaria honra no trabalho, salutar empenho na construção da justiça, da paz e da fraternidade, colaborando na efectividade de um mundo melhor, solidário, corresponsável pelo harmonioso progresso integral dos povos.
Tais virtudes estão contempladas no início da poética hebraica (Sl 1, 1), quando proclama bem aventurados os que seguem aqueles preceitos, logo transpostos para o prestígio das nações, educadas e formadas por insignes universidades, onde preclaros mestres e doutores habilitassem, integralmente, as novas gerações, sendo autênticos professores humanistas.
O valor das cadeiras, sejam de Teologia, Letras, Filosofia, Cânones, Direito, Ciências, Economia, sejam de Farmácia e de Medicina, está dirigido à saúde pública, todavia, na condição de os catedráticos de sanidade se tornarem de peste – por serem movidos pela ambição, lisonja e temor – procedem consoante as circunstâncias, as conveniências, o oportunismo, levados como pó solto e leve, que o vento dominante sopra da terra, para enublar o ambiente geral.
Nesta perversão, enveredam muitos consentâneos, associados a outras notórias pseudo-mundividências sectárias, pelas quais mudam critérios, leis jurídicas, códigos deontológicos, procedimentos venerandos, disciplinas inestimáveis. A cathedra pestilentiae, emissora de veneno, ruína e peste aplaude quaisquer hereges das leis (mesmo que sejam canónicas – alusão aos inquisidores!), distinguindo-os como doutos conceituados, e despreza quem defende a sensatez, a razão e a verdade, contrariamente ao desgraçado Baltazar, homem coerente, premiando Daniel, pela integridade proferida no respeitante ao fim do próprio monarca e da preponderância babilónica (Dan 5, 7 e 25-30).

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