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22 de fevereiro de 2007

Fé e Compromisso


PAULO OU APOLO?

José Dias da Silva

Alguém me perguntou por que não escrevi sobre o referendo. A resposta é fácil. Porque não me parece legítimo este tipo de referendos. Se estamos no campo moral, as normas morais não são, para mim, referendáveis; se estamos no campo legislativo, a sociedade portuguesa dispõe do Parlamento onde existem peritos nas várias áreas para preparar a lei que melhor sirva os interesses de toda a sociedade. Além do mais, este assunto é demasiado complexo para se ficar por uma pergunta ambígua, mais apropriada para quem dispõe de dotes oratórios.
De qualquer maneira o debate foi intenso. Não sei se foi esclarecedor na medida em que se cruzaram informações contraditórias sobre dados objectivos. Mas chamou a atenção para um problema muito sério e para a necessidade de fazer muito mais do que até agora tem sido feito.
Do muito que se pode dizer, há um aspecto que queria hoje abordar: o ter havido católicos que votaram não, que votaram sim e que se abstiveram. Como vamos lidar com esta situação sem cairmos em extremismos e falta de caridade? Não nos iludamos, pois corremos o risco de olhar para o outro, o que votou diferente, com suspeição declarada ou disfarçada, incapazes, na maior parte das vezes, de falar claro preferindo indirectas ou insinuações malsãs. Esta não é uma forma evangélica de abordar a situação. E há muitas razões para nos continuarmos a amar como irmãos.
Razões humanas: os que votaram sim nem são pessoas mal intencionadas nem o expoente civilizacional; os que votaram não nem são as pessoas mais bem formadas nem são atrasadinhos que põem em causa o desenvolvimento da humanidade. Estamos todos, de um modo geral, preocupados para que este mundo esteja cada mais conforme à dignidade humana.
Razões teológicas: Deus não faz acepção de pessoas, sempre acolheu todos especialmente os pecadores; Jesus mandou-nos amar a todos mesmo os nossos inimigos e quanto aos seus discípulos deu-lhes um mandamento novo que "nos amássemos uns aos outros como Ele nos amou". Mais, o Sermão da Montanha recomenda que "não julgueis" e o senhor do campo proibiu os criados de arrancar o joio do meio do trigo. Portanto, nenhum de nós foi instituído por Deus como inquisidor do outro, de nenhum outro. Até porque ninguém, senão Deus, sabe responder à pergunta: quem ama mais Jesus Cristo: os do não, os do sim ou os que se abstiveram?
Razões eclesiais: o tema não é nenhum dogma de fé; é um assunto muito importante, mas que envolve aspectos muito complexos nem sempre fáceis de destrinçar.
Razões sociais: somos todos cidadãos que vivemos numa sociedade democrática e plural em que há várias soluções legislativas, que não podem ser ditadas pelas exigências morais de um dada corrente de pensamento mas pelo consenso resultante dos vários pareceres. Daí a importância ímpar que a Assembleia da República desempenha neste exercício.
Por outro lado, há causas que dificultam a vivência da fraternidade. Aponto apenas três.
Não sabemos lidar bem com o conflito dentro da comunidade cristã. Esquecemo-nos ou não lemos com atenção e amor a Sagrada Escritura. A primeira leitura de domingo passado é já um bom exemplo. As Cartas de S. Paulo e os Actos estão cheios de situações em que a comunidade se dividiu ao meio. Só a título de exemplo sugiro a leitura de Rom 14. Ou as disputas em Corinto sobre Paulo, Apolo, Cefas ou Cristo (1Cor 1,12ss). Esquecemos (ignoramos?) a regra do Concílio para estas situações: "Procurem sempre esclarecer-se mutuamente num diálogo sincero, salvaguardando a caridade recíproca e atendendo, antes de mais, ao bem comum" (GS 43).
Outra dificuldade, mais de fundo, é que olhamos para o Cristianismo como uma ética (que também é) e não como seguimento de uma Pessoa, Jesus Cristo. É evidente que é muito mais fácil ir à lista das virtudes ou dos pecados do que perguntar o que faria Jesus ou o que me interpela Ele a fazer. O episódio da mulher adúltera devia ser mais meditado, mas não para destacar apenas o reconfortante e sossegador "vai e não tornes a pecar" (Jo 6,11).
Muito delicada é a questão relacionada com atender ou não às palavras do Papa. Ouvir e ler as palavras do Papa e dos Bispos não preocupa muito a maioria dos católicos! E quando nos preocupa, só ouvimos o que nos interessa. Que fizemos destas palavras de Bento XVI: "A Igreja é a família de Deus no mundo. Nesta família, não deve haver ninguém que sofra por falta do necessário. Ao mesmo tempo, porém, a caritas-agape estende-se para além das fronteiras da Igreja; a parábola do Bom Samaritano permanece como critério de medida" (DCE 25)?
Damos a mesma importância a estas palavras e às palavras sobre o aborto? Manifestamente que não. É que lutar contra o aborto (e devemos continuar a lutar contra o aborto e suas causas sem nos esquecermos de acolher amorosamente as mulheres envolvidas) não me obriga a mudar o estilo de vida. Mas fazer com que "ninguém sofra por falta do necessário" impõe uma mudança radical: partilhar bens e dons e combater o meu egoísmo e as estruturas injustas da sociedade. Ora, se as palavras do Papa nos vêm incomodar, obrigando-nos a uma tal ruptura vivencial, como podemos nós, que estamos bem como estamos, ouvi-las? Não será melhor ignorá-las?
"Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei: nisso conhecerão que sois meus discípulos".

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