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28 de agosto de 2008

A ACTUAL CRISE DO ANGLICANISMO


Manuel Augusto Rodrigues


Está a realizar-se em Cantuária a Conferência de Lambeth que teve início a 16 de Julho e termina a 4 de Agosto com a presença de 650 bispos anglicanos. De dez em dez anos o primaz de Cantuária, actualmente o seu arcebispo, Dr. Rowan Williams, convida os bispos anglicanos para um encontro do género em que são debatidos problemas e trocados pontos de vista sobre os mais variados temas. Mas nos últimos tempos o mundo anglicano tem sido abalado por uma série de crises, entre outras a questão do casamento de sacerdotes homossexuais, a ordenação de mulheres bispos e a possibilidade de abençoar uniões entre pessoas do mesmo sexo. Profundas discordâncias entre os membros da comunidade anglicana ameaçam seriamente a sua unidade, do que resultou terem muitos decidido recusar participar na Conferência de Lambeth 2008.
O anglicanismo nasceu de uma ruptura com Roma pelo facto de Henrique VIII de Inglaterra ter pretendido que o papa Clemente VIII anulasse o seu casamento com Catarina de Aragão. Excomungado por Roma, o monarca determinou que a Igreja anglicana ficasse afastada da autoridade pontifícia. Consequentemente, o anglicanismo propagou-se pelo mundo acompanhando a extensão do império britânico. Hoje existem 38 Igrejas anglicanas nacionais e regionais autónomas, chamadas também províncias. A última foi estabelecida em Hong-Kong em 1998.
A Igreja anglicana conta hoje 80 milhões de fiéis; à de Inglaterra pertencem 24 milhões. Depois vem a Igreja da Nigéria com 18 milhões e a do Uganda com 8, países na sua maioria muçulmanos, mas onde os anglicanos têm à sua frente responsáveis religiosos carismáticos e influentes, visceralmente opostos ao liberalismo ocidental. Um deles, Peter Akinola, primaz da Igreja anglicana da Nigéria tornou-se o chefe de fila desta oposição. Contesta as posições liberais em matéria de costumes inspiradas pela Igreja do hemisfério norte e, nomeadamente, pelas províncias dos Estados Unidos e do Canadá que, segundo ele, arruínam os seus esforços de resistência face ao crescimento do Islão e ferem profundamente a sua fé fundada numa leitura da Bíblia que condena, por exemplo, os costumes homossexuais, como o pratica também o Islão (na Nigéria) onde a "charia" é aplicada e as pessoas julgadas culpadas de sodomia são condenadas à morte por lapidação.
Os bispos de África faltaram, pois, ao encontro de Cantuária. Temos os bispos do sul, negro e conservador, contra o norte branco e liberal. Mas também o arcebispo de Sydney e o bispo inglês de Rochester decidiram não estar presentes.
Pergunta-se, entretanto, se a verdadeira questão reside nos pontos controversos acima referidos. Alguns bispos anglicanos opinam que o cerne do problema está na descristianização da sociedade e na desintegração da célula familiar. Uma outra questão crucial é a da interpretação da Bíblia. Pode ainda juntar-se o modo tradicional da organização tradicional da igreja anglicana. Nesta era pós-colonial, o arcebispo de Cantuária pode continuar a ser o único árbitro da fé anglicana?
Tem-se assistido à passagem de um certo número dos seus membros, clérigos e bispos, para a esfera católica. Um grupo dissidente chamado "Comunhão anglicana tradicional" tem estabelecido relações com o Vaticano. Um bispo anglicano teria pedido «aos (seus) irmãos católicos gestos magnânimos» para consentir estes tradicionalistas anglicanos que procuram fazer parte da Igreja católica. Se sacerdotes anglicanos casados puderam passar a ser católicos, a obrigação do celibato foi mantida pelo Vaticano quanto aos bispos. A barreira a ultrapassar não é fácil. Por seu lado, o papa Bento XVI, na viagem que o levou ao Encontro Mundial da Juventude, a 12 de Julho, disse da sua esperança que «o cisma ou novas fracturas sejam evitadas, e que sejam encontradas soluções para responder às necessidades da nossa época e à fidelidade ao Evangelho».
Esperamos agora o desfecho da Conferência de Lambeth para sabermos a que conclusões chegaram os seus participantes. Há quem fale de um eventual cisma. Mentalmente, contudo, a ruptura já se verificou. Mas parece totalmente improvável que seja tomada essa medida de separação, pois a maioria dos bispos presentes tem uma única ideia: manter a unidade. E os outros, como já afirmaram, num encontro em Jerusalém, que não querem de forma alguma afastar-se da comunhão anglicana. Pretendem, sim, reformá-la do ponto de vista bíblico. Outra interrogação que se coloca é esta: o sul pode prescindir do norte, nomeadamente da Igreja episcopaliana, quanto à sua manutenção financeira?

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