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8 de novembro de 2007

O meu Cristo partido


A. Borges de Carvalho

Descobri-o num montão de cavacas na garagem duma vizinha. É uma escultura perfeita de crucificado. Faltava-lhe um braço.
Logo manifestei à senhora que me mostrava a casa, a estranheza natural do que ali estava a ver... De imediato ela percebeu e procurou-me se o queria. Pois claro que quero – respondi.
Esbelto, de 80 centímetros, com as veias salientes, era mesmo "o mais belo dos filhos dos homens".
Adivinha-se que andou por ali uma afirmação confessional diferente da minha e a dona da casa já falecida, terá cumprido a ordem do "catequista" – desfazer-se do crucifixo.
Logo que pude levei-o à presença do amigo António Saraiva – um exímio escultor, sempre pronto a restituir às imagens a beleza que lhes pertenceu. Neste caso era um braço.
Ei-lO agora, no recanto mais apropriado da minha casa, para me deleitar a contemplá-lO e a invocá-lO em certas horas.
Passado algum tempo chega-me um convite de casamento. Dei voltas à cabeça à procura duma lembrança que fosse um pedaço de mim. Os noivos tinham-me cativado! Olhei, então, o crucifixo, sem coragem para decidir: dou...não dou... Apegado afectivamente a ele, doía-me desfazer-me deste "meu Cristo partido".
Por outro lado, o gesto tranquilizava-me: se não fosse um, seria o outro a olhá-lo, a estimá-lo, a evitar que fosse de novo parar às cavacas do fogão.
Nas poucas vezes que entrei em casa daquele casal que eu teimei em ver sempre noivos, já rodeados de dois rebentos encantadores, experimentava uma alegria interior que se não pode descrever...Tal júbilo consolava-me a alma. Jesus estava entronizado no melhor painel daquele santuário familiar.
Mas há dias passei e vi que o crucificado estava no chão. Depois dei conta que as coisas, por lá, não estão a correr bem. Por isto, por aquilo... ele que é ela, ela que é ele; e eu procuro razões e não as encontro. Penso eu que só falta diálogo, diálogo é o que falta. Sofro por eles e sofro por Ele. Apetece-me tirar razões e discutir. Será que esta Herança vai andar por aí aos tombos sem se saber em que monte vai calhar?
Folheio S. Paulo e leio: "Cristo está em agonia até ao fim dos tempos". Pois é e estes noivos podiam alivia-lo para bem de uma casa que eu não quero ver desfeita. Serão eles capazes? Queira Deus que sim!

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