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5 de novembro de 2008

Inflação de números e de letras?

José Dias da Silva


As notas agora publicadas sobretudo as de Matemática e Português, porque fora do esperado, devem merecer uma reflexão cuidada de todos nós. Governantes, professores, pais e cidadãos em geral devem interrogar-se seriamente sobre o que realmente queremos, tendo como pressuposto básico que hoje nenhum país se pode desenvolver, mesmo economicamente, se não tiver um bom suporte educativo humano e tecnológico e sem um eficaz exercício da cidadania.
Para mim, o falhanço do nosso sistema educativo reside no facto de não sermos capazes de ensinar as nossas crianças e, por arrastamento, os adolescentes e os adultos, a "ler, escrever e contar". Já várias vezes falei deste assunto. Mas a sua gravidade justifica que me repita e explicite melhor as minhas sugestões.
Que o Ministério defina objectivos claros, adequados e realistas para cada ano ou ciclo. É obrigatório para qualquer sucesso futuro que, nos primeiros anos, os alunos saibam ler (não apenas soletrar as letras, mas interpretar e saber explicar o que um texto transmite), escrever (não apenas saber o alfabeto, mas ser capaz de exprimir em palavras e frases inteligíveis, num texto "bem" elaborado, isto é, de acordo com as regras de uma composição, as suas ideias e opiniões) e contar (não apenas papaguear a tabuada, mas ganhar uma crescente familiaridade com a lógica e a linguagem da matemática, hoje base fundamental para muitas outras ciências). É necessário elaborar programas para o secundário que explicitem de modo claro os fundamentos conceptuais em vez de os apresentar perdidos em minudências sem suficiente hierarquização. E deixe-se para a universidade o seu aprofundamento e a explicitação, sem cair numa especialização dirigida apenas a "um emprego para toda a vida" (onde isso vai!?) ou a ser perito numa única matéria.
Que os professores dos primeiros anos, tenham como preocupação não só ensinar a "ler, escrever e contar", mas também passem a mensagem da exigência, de que o estudo não é uma brincadeira mas um exercício difícil que exige trabalho, responsabilidade e seriedade.
Que os professores em geral percebam que os métodos e até alguns saberes que lhes foram ensinados nem sempre são os mais indicados para hoje. As crianças mudaram. Os avanços tecnológicos trazem novas exigências. A criatividade e o espírito de inovação são hoje, num mundo em contínua mudança, tanto ou mais importantes do que a mera transmissão de conhecimentos técnicos. E aqui é também fundamental que o professor não saiba apenas a sua matéria específica mas que tenha um mínimo de cultura geral, que é cada vez mais pobre neste nosso país e, segundo parece, neste nosso mundo de "cultura inculta".
É urgente, por tudo isto, uma mentalidade nova, nomeadamente na educação, envolvendo ministério e professores. Mas isto não acontece por decreto nem num ano ou dois; implica a conversão e o sério empenhamento de todos. A ministra, que tem um papel importante na animação dessa nova mentalidade, deve saber resistir à tentação das estatísticas para o português ver ou a Europa nos considerar. Deve ter a coragem de "limpar" criteriosamente o ministério dos pedagogos de cátedra e de professores que há muito não dão aulas e, portanto, não fazem a menor ideia de que as suas brilhantes exigências e burocracias pouco ou nada têm a ver com a realidade (o mesmo poderia dizer de alguns sindicalistas profissionais): só com gente seriamente comprometida com o ensino poderemos ter programas adequados e provas e resultados acima de qualquer suspeita. Deve resistir à pressão de acabar com a avaliação. Desburocratize-a, simplifique-a, aperfeiçoe-a sem a reduzir a mero exercício para a estatística, mas não desista desse pressuposto necessário para dar credibilidade a todos. Com a nossa mentalidade – e os professores fazem parte da generalidade dos cidadãos – a avaliação é indispensável. A sua falta foi sempre o grande álibi da maior parte da baldice e da falta de empenho de muita gente e aqui não falo só dos professores mas de todos em geral, a começar pela grande maioria das comunidades eclesiais. Algumas até se reúnem para isso, mas muitas vezes a avaliação converte-se num exercício de auto-elogio ou de lamentações recorrentes.
Também não podemos ignorar um outro elemento comum à maioria dos portugueses: o medo. As pessoas têm medo, muitas vezes irracional, talvez porque nasce de uma consciência pouco tranquila, até da autoridade legítima. O resultado é tornar umas "mais papistas que o papa" e outras incapazes de assumir a crítica justa, fundamentada e frontal junto das instâncias competentes preferindo a crítica superficial, só entre amigos, à mesa do café. Acabam por aceitar, gregariamente, tudo o que vem de cima, mas só o cumprem, por medo, sem grande brio nem dignidade e se tiverem um "polícia" atrás de si.
Um país constrói-se com cidadania e conhecimento, um conhecimento actualizado, com transparência e responsabilidade, o que implica lutar aberta e honestamente contra o que está mal, enfrentando o risco de o dizer claramente aos responsáveis. Este risco, que efectivamente pode existir nos países com défice de cidadania e excesso de subserviência, desaparece logo que as pessoas se tornem cidadãs a sério dispostas a lutar pelos seus direitos mas também a cumprir os seus deveres.
Então teremos uma sociedade mais desenvolvida, mais justa e mais humana para todos.

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