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24 de abril de 2008

Igreja aprendente


Jorge Cotovio

Quero voltar à escola. Apesar de tão maltratada pela comunicação social, de tão enxovalhada por alguma opinião pública, não me é difícil encontrar práticas bem positivas, tendentes a acompanhar as profundas mutações culturais da nossa sociedade, que bem podem ajudar a nossa Igreja na sua missão evangelizadora – afinal de contas, a sua missão natural.
De escolas neutras, sem identidade, passou-se para escolas com projecto educativo, com regulamentos internos, com plano de actividades, com "missão" e com "visão" (muitas delas utilizando técnicas de marketing para cativar os seus clientes) e com prestação de contas, ou seja, avaliação. Que lições pode colher a Igreja? Talvez menos pastoral de "manutenção", de "rotina", e mais ambição nos projectos, mais trabalho colaborativo, mais eficácia na pastoral, mais imaginação, mais ousadia, sobretudo para não deixar fugir os "clientes" mais ou menos fiéis, e cativar os que fugiram, ou os que ainda não nos conhecem e andam por aí perdidos. E talvez um pouco mais de atenção à avaliação das nossa práticas, mesmo sabendo que a semente demora muito tempo a germinar e dar fruto. (Mas há sementeiras que dão logo indícios de má colheita, ou não há? Sejamos minimamente astutos para não repetirmos, sem nexo, projectos mal sucedidos).
Da figura do reitor todo-poderoso, a escola caminhou para a direcção colegial, coadjuvada, de perto, por uma assembleia representativa da comunidade educativa (e o previsível regresso à figura do "director", em nada se assemelha à velha estrutura reitoral). Nas nossas comunidades eclesiais, ainda terá cabimento um pastor centralizador, que tudo quer fazer, e que asfixia a criatividade e a acção das suas ovelhas? Temos conselhos paroquiais co-responsáveis e com espaços de liberdade, ou simples órgãos decorativos mais virados para a submissão do que para a missão?
De escolas centradas no ensino, passámos para escolas "culturais", abertas ao meio envolvente e inter-agindo com ele. De uma Igreja isolada nas suas celebrações e nos seus ritos, temos de caminhar para uma Igreja "aberta", em diálogo com o mundo (porque é neste mundo, com estes homens e mulheres concretos, que ela se santifica). Somos poucos, é certo. Mas se formos "bons", teremos genica suficiente (porque o Espírito torce por nós…) para, em comunhão, sem amuos e invejazinhas, derrubar muros, construir pontes e vermos nos outros, até nos que estão aparentemente contra nós (e sobretudo nestes!), os grandes protagonistas e destinatários da "nova" evangelização.
De uma escola com um currículo rígido, passou-se para a "gestão flexível do currículo" e para as "novas oportunidades", reconhecendo-se competências adquiridas e estimulando o gosto por aprender. Em Igreja, fala-se muito – e bem! - na necessidade de formação dos leigos. Mas desaproveitamos tantos com reconhecida formação humana, científica, com cursos e mais cursos de catequese, com participações em jornadas, colóquios e coisas do género. E não potenciamos adequadamente tantos leigos com uma base sólida nas ciências de Deus: os ex-seminaristas (muitos dos quais com o curso completo), os ex-sacerdotes, os ex-consagrados. Temos sabido acolhê-los e desafiá-los, mesmo sendo críticos relativamente a muitos aspectos?
De escolas distanciadas das famílias, quase as ignorando, passou-se para escolas próximas (e cúmplices) das famílias, vendo-as como parceiras privilegiadas para o sucesso educativo. E nós, Igreja, acreditamos que temos de investir nessa pequenina célula societária para a transformar em "Igreja doméstica"? Estamos convictos de que, com pais "bons" e crentes, com famílias estáveis, há muito mais probabilidade de termos filhos "bons", equilibrados e crentes? (Ou tudo isto não passa de "poesia"?). Temos investido a montante, na catequese, na pastoral da juventude, na preparação para o matrimónio? Temos acolhido e apoiado os novos casais, nas suas comunidades? Temos cativado aqueles pais e mães, novitos, que nos vão procurando quando pedem o baptismo para os filhos, ou quando os inscrevem na catequese e participam nas suas festas? Temos sabido amparar, compreender e acolher as famílias que perdem, dolorosamente, um dos seus membros? As celebrações fúnebres são bem preparadas? Já reparámos que nelas participam muitas das ovelhas perdidas, revoltadas e ignoradas? (Talvez urja reinventar a pastoral exequial).
Antigamente, a Igreja era pioneira. Em tudo. E ensinava. E "marcava". Hoje, em muitos aspectos, precisa de aprender. E precisa de passar (novamente) adiante, não para "ganhar" a competição, mas porque a escola e a sociedade precisam dos seus ensinamentos, da sua experiência, da sua espiritualidade, da sua vida. É que a Igreja tem a chave da salvação, chamada Jesus Cristo. Ele é a porta. Ele é o caminho. Com Ele, estaremos salvos, mesmo no meio das tempestades da vida. Com Ele, os sofrimentos e as provações são sublimados, as sextas-feiras de paixão transformadas em dias de Páscoa. Com Ele, com o Seu Espírito, somos capazes de "converter" esta sociedade, aparentemente "perdida".
E agora, só mais uma pergunta inquietante para terminar: nós – leigos, religiosos, diáconos, padres e bispos – estamos mesmo convencidos disto, ou… (ainda) não?

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